Jornais superestimam testes em animais, revela análise | A CURA QUE NÃO CHEGA

Investigação aponta que parte da imprensa brasileira exagera quando o assunto é experimentação animal.

capa reportagem testes em animais

Em análise inédita realizada no último mês de junho, O Holocausto Animal fez um levantamento sobre testes em animais no acervo dos principais veículos impressos do país, incluindo o “Estadão“, a “Folha de S.Paulo” e “O Globo“. Por meio da ferramenta online, disponibilizada pelos jornais citados, palavras-chave relativas à experimentação em animais foram utilizadas, a fim de determinar de que forma tais testes acabam sendo julgados promissores.

O Holocausto Animal apurou que várias vezes a imprensa superestima estudos com animais, sendo em forma de manchetes chamativas ou com notícias e reportagens capazes de suscitar confiança no método mesmo quando os resultados são mínimos ou inexistentes para seres humanos. Nos editoriais, que representam a opinião dos jornais, a experimentação animal é tida como um caminho praticamente irrevogável.

Esperando…

Um panorama inicial pode ser traçado com a busca da palavra “camundongos”. Milhares de menções podem ser encontradas, e boa parte delas refere-se às pesquisas com animais. Na “Folha”, há 3.158 resultados; no “Estadão”, 5.878 e no “O Globo” 4.743. [1] Há diversas publicações sobre possíveis tratamentos ou cura de doenças humanas pela experimentação em camundongos — incluindo câncer, obesidade, diabetes, Aids, esquizofrenia, Parkinson, Alzheimer, derrame e até resfriado.

Em 1960, o jornal “Folha de S.Paulo” noticiou a eficácia de uma vacina contra o tracoma, uma doença inflamatória ocular, em camundongos [2]. Em 1988, o “Estadão” publicou uma notícia capaz de suscitar a confiança na cura da Aids em humanos [3], e no ano de 1998 publicou uma edição com a manchete de capa: “Cientista avança rumo à cura do câncer” [4]. Já “O Globo” tem uma entrevista datada de 5 de março de 1954 que coloca a “vitória sobre o câncer” como “uma questão de tempo” [5].

Quase 60 anos se passaram da suposta conquista do tracoma e cerca de 30 da Aids. A cura não chegou. Apesar disso, no século 21 se concentram a maioria das notícias referentes ao tema. Mesmo com resultados suspeitos para os seres humanos, o “Estadão” divulgou em 2000 a vitória de uma vacina contra o Alzheimer em camundongos [6] e a “esperança para a cura de paralisia” [7]; “O Globo”, em 2008, provocou uma expectativa pela cura do resfriado [8] e da infertilidade feminina [9]. Em 2017 é possível encontrar outros exemplos – na edição de 22 de março deste ano, a “Folha de S.Paulo” noticiou um experimento no qual um veneno de aranha teve eficácia para o tratamento de AVC em camundongos [10].

Nos editoriais, em “Ladrões de cobaias”, o “Estadão” descreve a experimentação animal como “um trabalho fundamental para a indústria farmacêutica”, criticando os ativistas que resgataram os beagles do Instituto Royal como “fascistoides” e “irresponsáveis” [11]. A “Folha” defende uma “inescapável (…) hierarquia”, na qual “uma vida humana vale mais que a de um cão” [12].

Do contra

Mas há também aquelas matérias que falam do fracasso dos testes em animais. Já em 1949, “O Globo” publica uma entrevista com o então diretor do Serviço Nacional do Câncer, Mário Kroeff. Contrariando as expectativas dos testes em camundongos feitos à época, que fizeram os cientistas acreditarem que o câncer humano era fruto de um “vírus”, Mário disse que tal suposição apenas foi verificada nos pequenos roedores usados em laboratório: “Completamente diferente é o que se passa no gênero humano, em que as condições são completamente outras”. [13]

Uma reportagem de “O Globo” de 2014 relata a baixa eficácia dos experimentos realizados em animais. A repórter Flávia Milhorance escreveu: “Cientista diz que 90% das ideias de novos remédios naufragam”. Lynn Collura, bióloga entrevistada, afirmou que “às vezes, o que funciona in vitro e em animais não necessariamente vai ter o mesmo efeito em nós”. [14] Reiterando: o “às vezes” equivale a 90% dos casos. Isso porque todo medicamento precisa ser testado in vitro e em duas espécies de animais, roedor e não roedor. A substância só entra no mercado se passar na fase clínica, com seres humanos.

Quando o uso dos chimpanzés começou a ser abandonado em experiências, a “Folha” publicou uma reportagem dizendo que “a libertação de nossos irmãos primatas está próxima”. Apesar dos autores alegarem na época que o chimpanzé era “indispensável” para experimentos da hepatite C, cita-se como ele se revelou “um modelo experimental ruim para o estudo da Aids”. [15]

Pelo menos no caso dos chimpanzés, de fato a libertação aconteceu. O Instituto Nacional de Saúde dos EUA (NIH) anunciou em novembro de 2015 o fim dessas experiências. Desde então, o governo norte-americano parou de financiar testes em chimpanzés, especialmente pelos resultados pobres depois de décadas de desperdício de dinheiro público.

Bom demais para ser verdade

Pesquisadores geralmente se mostram relutantes em reconhecer a ruína da experimentação animal. E, diga-se de passagem, admitir aspectos limitantes da própria pesquisa já é complicado para um cientista, ainda mais quando se recebe atenção midiática.

As reportagens produzidas pelos jornais analisados relatam experiências e supostas descobertas promissoras realizadas com animais. Entretanto, a mídia repete o tema citando a divulgação de algum estudo publicado em papers acadêmicos. Porém, anunciar “grandes descobertas” vende. Nesse sentido, as manchetes costumam ser mais enfáticas. No corpo da matéria, especialistas geralmente recomendam cautela, pois “muitas vezes o que funciona nos ratos não funciona nas pessoas” [16].

Em uma matéria sobre a criação do “primeiro primata transgênico”, a jornalista Isabel Gerhardt reconhece o problema: “E toda hora é anunciada uma nova pesquisa que acena com a possibilidade de cura ou tratamento para cada uma dessas doenças. Em camundongos.” [17]

Mas soa injusto responsabilizar apenas os meios de comunicação pelos fracassos anunciados da experimentação animal. Um estudo de 2013 da PLOS Biology, chamado “Evaluation of excess significance bias in animal studies of neurological diseases“, apontou que quase metade das publicações de experiências neurológicas em animais apresenta falsos positivos e conclusões tendenciosas [18]. Em 2006, o professor de epidemiologia da Escola de Saúde Pública da Universidade de Yale, Dr. Michael Bracken, argumentou que até 87,5% da pesquisa biomédica é ineficaz e, portanto, desperdiçada. Bracken alegou que de cada 100 projetos de pesquisa, metade é publicada; das 50 pesquisas, metade possui falhas significativas, isto é, os resultados não são confiáveis; dentre as 25 restantes, metade é desnecessária ou redundante devido a publicações já feitas [19].

Sem ingenuidade

De acordo com a filósofa e escritora Dra. Sônia T. Felipe, pós-doutora em Bioética – Ética Animal na Universidade de Lisboa e autora do livro “Ética e Experimentação Animal: Fundamentos Abolicionistas“, a promessa de cura das doenças humanas por meio de testes em animais é uma “fraude”. Ela afirma que a indústria farmacêutica usa a grande mídia como veículo de propaganda medicinal de drogas que acabam sendo prescritas a pacientes.

“É tudo muito bem encadeado para que o negócio prossiga”, disse.

Sobre a insistência na realização dos experimentos em outras espécies, Sônia alega que os vivissectores criam uma carreira renomada seguindo esse caminho, uma vez que seus papers são publicados nas revistas científicas mais importantes, além de receberem financiamento das companhias farmacêuticas para testes de princípios ativos em animais.

Questionada sobre uma possível “ingenuidade” da parte dos cientistas, em aparentemente não saberem a baixa eficácia da experimentação animal, ela comentou: “É ingenuidade pensar que os cientistas são tão ingênuos. Todos são financiados.”

‘Falsas esperanças’

Já o jornalista de formação Maurício Kanno, que trabalhou na “Folha” entre 2009 e 2011 na seção de ciências, não considera haver “má-fé” por parte dos jornalistas que publicam as matérias sobre o tema.

“É uma questão cultural das pessoas que trabalham com a ciência e acreditam que esse é o melhor caminho a ser feito”, alegou.

Por outro lado, Maurício disse que talvez falte um olhar mais crítico dos jornalistas diante das experiências em animais, existindo também uma “ideologia incrustada, na qual os animais não tem a menor importância perto de qualquer mínima ou suposta descoberta científica”.

Para Rafael Garcia, jornalista graduado pela ECA-USP (Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo), com 15 anos de profissão dedicados à cobertura de ciência, a divulgação dos resultados da experimentação animal é “superimportante” e “avanço por avanço deve ser coberto [pela mídia]”. Ele considera que as pessoas podem se interessar mais em ciência lendo essas reportagens, no entanto, critica notícias que tentam “vender a descoberta mais importante do que ela é”.

“É preciso cuidado, para não alimentar falsas esperanças. Muitas matérias erram no grau de importância”, disse.

A culpa do excesso de confiança, segundo Rafael, às vezes é do próprio editor do jornal, que supervaloriza determinada matéria por objetivos comerciais.

“Os cientistas costumam ser muito cautelosos… No geral, não fazem promessas”, afirmou.

Consenso e dificuldade

Reinado José Lopes, repórter de ciência da “Folha de S.Paulo”, também considera a divulgação das pesquisas em animais algo importante. De acordo com ele, os erros cometidos em testes com animais fazem parte do processo científico e grandes conquistas podem demorar décadas para ocorrerem.

“Seguimos o consenso da área”, disse.

No entanto, Reinaldo alega que notícias que prometem curas geralmente são de responsabilidade do jornalista, mas diz existir uma “inércia institucional” na comunidade acadêmica em relação à experimentação animal.

“Sempre tento deixar claro que os dados são preliminares. Existem muitas variáveis interagindo com o organismo, por isso a predição é difícil”, afirmou.

‘Irresponsabilidade’

Segundo o advogado Alex Peguinelli, a vivissecção trata os animais como “objetos”, impedindo que eles sejam “reconhecidos como sujeitos de direito”. Ele ainda considera uma “irresponsabilidade” a atitude da mídia tradicional diante do tema, afirmando que os jornais acabam por alimentar a indústria vivisseccionista.

Já a advogada Melina Valério afirma que um possível processo jurídico por parte dos pacientes apenas seria viável caso as companhias farmacêuticas garantissem a cura por meio de uma droga sem efeito comprovado.

“Se uma empresa farmacêutica prometer a cura do câncer por meio de uma pílula em fase de testes, e um paciente conseguir comprovar que sofreu danos diretos relativos à expectativa dessa cura, então uma ação jurídica poderia ser tomada”, esclareceu.

Mas, de acordo com Melina, este cenário é bastante improvável de acontecer: “A indústria não tem como prever. Os testes são feitos justamente porque não se sabe como a droga vai se comportar.”

“Os jornais que fazem sensacionalismo”, finalizou.

Posição dos jornais

O Holocausto Animal entrou em contato por e-mail e telefone com os jornais citados, mas não obteve resposta até o fechamento dessa matéria.

Atualização (14/09/2017, 15h56): Por e-mail, a “Folha de S.Paulo” informou que os estudos, já publicados em revistas que são revisadas por pares, são avaliados pelos jornalistas por meio de critérios como “tamanho amostral, tipo de controle experimental e análise estatística”.

A “Folha” ainda diz que “o papel do jornalista é, além de ler e conhecer o estudo, saber medir a relevância dele naquela área de pesquisa e o potencial interesse para o leitor”. Também foi indicada a leitura da reportagem: “Na área da psicologia, 61% dos estudos científicos são frágeis” (28/08/2008).

Infográfico

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Outros exemplos

Clicando aqui, você terá acesso a um arquivo em PDF com as referências do material analisado pelo blog.

Referências

[1] Os 10 primeiros resultados do “Estadão” e da “Folha” citam experiências em camundongos; no “Globo”, 7. No “Estadão”, foram obtidos 802 resultados no caderno “Geral”, 96 no “Agrícola” e 29 em “Cultura”; na “Folha de S.Paulo”, 2.601 em “Ilustrada”, 692 no “Cotidiano” e 148 no tema “Ciência e tecnologia”; em “O Globo”, 948 resultados no “Ciência”, 759 em “Mundo” e 1.709 em “Cultura” — há publicações de testes em animais em todos os cadernos mencionados.

[2] Perspectivas de vacina contra o tracoma. Folha de S.Paulo, Ilustrada, 27 de agosto de 1960, p. 3.

[3] Ciência usa ratos para cura da Aids. Estadão, 17 de setembro de 1988, p. 12.

[4] KOLATA, Gina. Cientista avança rumo à cura do câncer (Capa) | Descobertas drogas que curam câncer em ratos. Estadão, 4 de maio de 1998, Geral, p. 7.

[5] Vitória sobre o câncer é apenas uma questão de tempo. O Globo, Matutina, 5 de março de 1954, p. 1.

[6] Vacina dá esperança em casos de Alzheimer. Estadão, 21 de dezembro de 2000, p. a13.

[7] Experimento com ratos traz esperança para cura de paralisia. Estadão, 27 de janeiro de 2000, Geral, p. 14. Ver também: Descoberta pode levar à cura da paraplegia. Estadão, 14 de janeiro de 1994, Geral, p. 15.

[8] CONNOR, Steve. Rumo à cura do resfriado. O Globo, Ciência, 5 de fevereiro de 2008, p. 20.

[9] E fez-se um bebê. O Globo, 5 de outubro de 2012, Matutina, Ciência, p. 40.

[10] Veneno de aranha pode reduzir danos de AVC. Folha de S.Paulo, 22 de março de 2017, p. b5.

[11] Ladrões de cobaias. Estadão, 22 de outubro de 2013, p. a3.

[12] Comportamento animal. Folha de S.Paulo, 23 de outubro de 2013, p. a2.

[13] As novas descobertas para o combate ao câncer. O Globo, Matutina, Geral, 25 de abril de 1949, p. 2.

[14] MILHORANCE, Flávia. Um ataque mais certeiro contra o câncer: Entre tentativas e (muitos) erros. O Globo, Sociedade, 28 de setembro de 2014, p. 40.

[15] GARCIA, Rafael; LOPES, Reinaldo José. A hora e a vez dos chimpanzés | A libertação de nossos irmãos primatas está próxima. Folha de S.Paulo, Ilustríssima, Ciência, 6 de novembro de 2011, p. 4.

[16] KOLATA, Gina. Terapia controversa é comprovada em ratos. Estadão, 25 de março de 2006, Geral, p. 28.

[17] GERHARDT, Isabel. Criado o primeiro primata transgênico. Folha de S.Paulo, 12 de janeiro de 2001, p. a12.

[18] TSILIDIS, Konstantinos K. et al. Evaluation of excess significance bias in animal studies of neurological diseases. PLOS Biology, v. 11, n. 7, p. e1001609, 2013.

[19] BOCK, Eric. Much Biomedical Research is Wasted, Argues Bracken. National Institutes of Health, July 1, 2016, Vol. LXVIII, n. 14.

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3 respostas para “Jornais superestimam testes em animais, revela análise | A CURA QUE NÃO CHEGA”

  1. Republicou isso em Paulosisinno's Bloge comentado:
    Mais uma matéria excelente, cuja leitura recomendo muito, da página Holocausto Animal, importantíssimo ponto de referência na defesa dos Direitos dos Animais. Segue o trecho inicial; depois clique no linque para ler a íntegra da matéria: “Em análise inédita realizada no último mês de junho, O Holocausto Animal fez um levantamento sobre testes em animais no acervo dos principais veículos impressos do país, incluindo o “Estadão“, a “Folha de S.Paulo” e “O Globo“. Por meio da ferramenta online, disponibilizada pelos jornais citados, palavras-chave relativas à experimentação em animais foram utilizadas, a fim de determinar de que forma tais testes acabam sendo julgados promissores.

    O Holocausto Animal apurou que várias vezes a imprensa superestima estudos com animais, sendo em forma de manchetes chamativas ou com notícias e reportagens capazes de suscitar confiança no método mesmo quando os resultados são mínimos ou inexistentes para seres humanos.”

  2. Mais uma matéria excelente, obrigado! Eu sempre recomendo muito a meus amigos a leitura da página Holocausto Animal, que é um importantíssimo ponto de referência na defesa dos Direitos dos Animais. Agradeço muito por tudo o que vocês fazem pelos animais! Ainda chegará o dia em que todos terão seus direitos respeitados, não só os humanos!

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