Ex-cavaleiro defende o fim do hipismo; entrevista exclusiva com representante argentino da Nevzorov Haute Ecole

A percepção a respeito da crueldade contra os cavalos usados nas atividades equestres é cada vez maior. Por longo tempo, se considerou que os animais explorados no hipismo e respectivas atividades não sofriam. No entanto, pesquisas feitas por Alexander Nevzorov e Lydia Nevzorova trouxeram luz ao tema, revelando a crueldade silenciosa imposta aos equinos.

No intuito de compreender com mais detalhes esses estudos, entrevistamos o representante argentino, David Castro, da Nevzorov Haute Ecole.

Créditos: David Castro

Imagem: David Castro / Foto: Mariana Domic

David Castro já foi domador de cavalos e cavaleiro. Hoje, se define como ex-cavaleiro, ex-treinador e ex-domador – “ex todo”, como diz ele.

No dia 16 de janeiro de 2017, durante mais de 3 horas de conversa, Castro contou por telefone com exclusividade ao O Holocausto Animal as razões que o fizeram desistir da doma.

Acompanhe conosco!

“Nenhum cavalo permite que um ser humano monte nas suas costas sem que seja violentado física e psiquicamente.”

O que te motivou a deixar de montar a cavalo?

As razões que me fizeram deixar de montar a cavalo estão relacionadas com os estudos realizados sobre esses animais. Em princípio, me relacionei com os cavalos de forma amadora, mas com o tempo me transformei em um profissional de doma e passei a estudar sobre o comportamento equino e sobre os métodos usados para domá-los e treiná-los.

Durante muitos anos, eu não só montava a cavalo como estudava os princípios da equitação para poder treiná-los e domá-los de maneiras ‘não violentas’. Mas tudo isso terminou quando eu descobri que, aquilo que acreditam ser maneiras ‘não violentas’ de doma, apesar de envolverem menor violência física e menos golpes no animal, ainda são métodos de violência psicológica e de condicionamento, e não verdadeiros diálogos e modos respeitosos de se relacionar com os cavalos.

Assim, comecei a encontrar evidências de que cavalos não são preparados para transportar pessoas, sendo um ato muito danoso para o seu corpo. Além disso, também descobri que nenhum cavalo permite que um ser humano monte nas suas costas sem que seja violentado física e psiquicamente.

Nenhum cavalo pode transportar uma pessoa sem sofrer as consequências dessa situação artificial e prejudicial, e é por isso que dentro da história da equitação sempre houve profissionais que, percebendo isso, estudaram maneiras de preparar os cavalos para poder montá-los com o menor dano possível.

“Chamar o hipismo de ‘esporte equestre’ seria como chamar de ‘esporte’ a tortura animal.”

Quais tipos de abusos os cavalos sofrem nos chamados “esportes equestres”?

As atividades realizadas com cavalos que chamam de ‘esportes equestres’ são bastante contraditórias, porque a palavra ‘esporte’, pelo menos para a maioria das pessoas, está relacionada com algo positivo, admirável, ético e moral. Porém, os ‘esportes equestres’ não possuem tais características, porque exigem a escravidão dos cavalos, submetendo-os de tal forma que é impossível não haver dor.

Chamar o hipismo de ‘esporte equestre’ seria como chamar de ‘esporte’ a tortura animal, ou achar divertido a tortura de um cachorro indefeso ou a caça aos pombos, isto é, todas as atividades que provocam sofrimento, morte e abuso de animais, que, na verdade, não têm interesse em participar dessas atividades. Não se pode considerá-las corretas ou éticas, pois elas promovem a falta de sensibilidade com os animais.

O peso que o ser humano provoca sobre o cavalo se dá diretamente em sua coluna vertebral, provocando em sua musculatura e tecidos um processo de morte celular, ou seja, falta de suprimento sanguíneo, gerando dormência. A situação é parecida como quando cruzamos nossa perna por mais tempo que ela pode suportar. Se o fizermos por muito tempo, a circulação sanguínea fica comprometida e sentimos o membro adormecer. Portanto, essas sensações estão relacionadas com o impedimento da livre circulação do sangue, que pode gerar necrose celular. Pode haver uma recuperação, e no caso do cavalo vai depender do tempo de descanso e da intensidade da ação sobre o animal.

Os freios e bridões usados também produzem danos. A salivação excessiva do cavalo, fruto do uso das embocaduras, afeta a sua respiração. A alta velocidade que o cavalo é capaz de atingir exige a inspiração de uma boa quantidade de ar, mas para isso ocorrer naturalmente, a boca deve estar livre.

As embocaduras produzem efeitos nocivos no cavalo, incluindo a destruição dos tecidos da boca, podendo até cortá-la, e problemas respiratórios e digestivos. O impacto gerado pode inclusive fraturar o dente.  Seu aparelho digestivo secreta suco gástrico o tempo todo se há algo na sua boca. Esses são os efeitos mais comuns. Eles ocorrem porque, basicamente, a embocadura é um instrumento criado para gerar dor na boca do cavalo. Essa é a sua função.

Quando a embocadura pressiona a língua, um órgão bastante enervado, o cavalo sente muita dor, pois nessa região existe o nervo trigêmeo, que vai diretamente à cabeça do cavalo. A dor produzida é como uma sensação de queimação… É isso que o cavalo sente. É por isso que é possível domar um animal tão grande com um pequeno pedaço de ferro ou metal em sua boca.

“Com os saltos, devido aos instrumentos utilizados, não há possibilidade do cavalo equilibrar o balanço do corpo. Seus tendões e sua coluna sofrem muito com os impactos.”

Adeptos e praticantes do hipismo alegam que os cavalos são “bem tratados” nessas atividades. Isso é verdadeiro?

A equitação vai contra a natureza do cavalo. O seu corpo foi projetado para se mover diariamente por muitos quilômetros. É um animal que, em seu habitat, vive em companhia de outros da sua espécie. Mas em hípicas, eles ficam em pequenos recintos, sem poder correr e privados de companhia.

Nenhuma atividade que obrigamos o cavalo a fazer constitui parte da sua natureza. É comum que nas corridas de cavalos, por exemplo, por correrem em alta velocidade por bastante tempo, seus pulmões sejam afetados por hemorragia. Nas provas de salto, todo o sistema do cavalo é afetado. Devido às rédeas, sua cabeça fica em posições incômodas e o animal não pode acomodá-la na medida em que necessita. Com os saltos, devido aos instrumentos utilizados, não há possibilidade do cavalo equilibrar o balanço do corpo. Seus tendões e sua coluna sofrem muito com os impactos. Além disso, o cavalo precisa levantar excessivamente suas patas superiores, o que é dolorido.

Há muitos níveis de manejo de cavalo que não são bons para a saúde do seu corpo. Então há um descuido diante das suas necessidades básicas, alimentícias e naturais, mesmo que seja pela inconsciência ou ignorância. E durante a execução das atividades equestres, temos de entender que o cavalo sempre é conduzido pela dor. E foi ela que permitiu ao homem controlar o cavalo durante os séculos.

Apesar de que, nos últimos 30 anos, tem havido um despontar de novas metodologias que tendem a ter o controle psicológico do cavalo, evitando o uso de golpes físicos. Entretanto, há um maltrato importante de índole psicológica. Além dos problemas já citados pelos instrumentos utilizados pelo cavaleiro.

“Qualquer metodologia de doma ou montaria é dolorosa e prejudicial. Algumas podem não ser vistas em curto prazo, mas com o tempo são constatadas.”

Sabemos que o hipismo envolve muito dinheiro. Você acredita que ele possa acabar algum dia?

Na história da humanidade existem pessoas que compreenderam o uso dos animais como uma forma de abuso e desrespeito, capaz de gerar sofrimento. Podemos entender que a história de nossa cultura sobre os animais acompanha a defesa da tradição e daquilo que se considera ‘bom trato’, desconsiderando o sofrimento inerente ao uso do animal.

Contudo, já antes se sabia que a embocadura colocada na boca do cavalo era usada para produzir uma forte dor, que é o que chamamos de choque nerval, sendo usada para o animal poder aceitar pessoas em suas costas. Portanto, desde que os animais têm sido usados na cultura ocidental como um mero objeto para diversão ou necessidade, tornou-se algo normal e natural.

No entanto, com o tempo surgiram novas concepções sobre os animais, que começaram a florescer dentro da própria cultura ocidental. Essas concepções falam sobre as semelhanças entre os animais humanos e não humanos, começando a questionar a visão que considera os animais como ferramentas, máquinas ou pedaços de carne processados pela a indústria alimentícia.

Passamos a ver os animais como seres sencientes e pensantes, isto é, seres cognitivos, de direitos, possuindo o direito à liberdade, felicidade, e a não sofrer. Hoje podemos falar de uma consciência a respeito dos animais e há muitas pesquisas recentes sobre os prejuízos que a montaria e a equitação produzem sobre os cavalos.

É verdade que hoje se criou metodologias que não utilizam embocaduras e que trabalham com distintos tipos de treino, somados a uma série de condicionamentos, que levam a um controle menos doloroso, mas, de toda forma, qualquer metodologia de doma ou montaria é dolorosa e prejudicial. Algumas podem não ser vistas em curto prazo, mas com o tempo são constatadas.

“Compreendi que nossa relação com os cavalos é culturalmente imposta, correspondendo à postura utilitarista perante aos animais e também pela visão religiosa, de que o homem está na Terra para dominar e usar as outras espécies.”

Como representante da Nevzorov Haute Ecole, você poderia nos contar um pouco mais sobre a sua relação com Alexander Nevzorov e Lydia Nevzorova?

Conheci o Alexander Nevzorov através dos movimentos Iron Free e Horse Revolution, que Lydia Nevzorova havia iniciado muitos anos atrás, por volta de 2000. Em princípio, me pareceu muita exagerada sua proposta, mas à medida que fui estudando pude compreender a verdade que Alexander estava denunciando contra os maus-tratos equestres e contra o hipismo. Em dado tempo, a Nevozrov Haute Ecole me convidou para participar de um grupo de alunos da escola internacional, e, então, em 2012, me tornei representante da escola na Argentina.

Alexander Nevzorov é o líder da visão que tenho sobre cavalos. É uma das figuras mais importantes da equitação do século passado e presente.

Após ter contato com as suas pesquisas, compreendi que nossa relação com os cavalos é culturalmente imposta, correspondendo à postura utilitarista perante aos animais e também pela visão religiosa, de que o homem está na Terra para dominar e usar as outras espécies. O esquema de dominação está presente na cultura de dominação de uns sobre os outros… Essa cultura estava envolvida na escravidão humana, pela possessão de terceiros através do uso da força, considerados escravos. Mas a revolução cultural dos últimos tempos se contrapõe ao antigo pensamento ocidental.

Anteriormente, considerávamos animais como nossos recursos, mas agora as pessoas estão sendo mais empáticas em relação aos animais e estão buscando outro modo de compreendê-los. Já discutimos os maus-tratos às mulheres e crianças e, portanto, começamos a entender os problemas desse tipo de funcionamento sociocultural.

E a nossa relação de exploração com os cavalos é fruto da ignorância, entretanto, estamos transformando isso. Assim começou Alexander… Assim estou trabalhando e também muitos outros estão nesse caminho.

Porém, considero que as pessoas que têm cavalos não são ruins… São pessoas que não sabem o que estão fazendo, mas que sentem amar cavalos e respeitá-los, no entanto, são ignorantes. Mas temos que compreender e ter a empatia necessária para ajudá-las a entender o que estão fazendo, pois existem mecanismos culturais que nos impedem de ver o que fazemos com os animais.

Você teria algum material para ser indicado aos brasileiros sobre o tema?

Em breve o meu livro ‘El Silencio de los Caballos’ (O Silêncio dos Cavalos) será traduzido e publicado em português em formato de E-book. Ele pode ser adquirido em castelhano neste link. Também indico esses vídeos produzidos pela Nevzorov Haute Ecole, sobre as evidências científicas dos danos produzidos pelo hipismo nos cavalos: Evidencia científica sobre el daño de montar a caballo, Efectos del Freno e Horse Revolution.

Gracias y un abrazo a todos.

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6 ideias sobre “Ex-cavaleiro defende o fim do hipismo; entrevista exclusiva com representante argentino da Nevzorov Haute Ecole

  1. paulosisinno

    Republicou isso em Paulosisinno's Bloge comentado:
    A percepção a respeito da crueldade contra os cavalos usados nas atividades equestres é cada vez maior. Por longo tempo, se considerou que os animais explorados no hipismo e respectivas atividades não sofriam. No entanto, pesquisas feitas por Alexander Nevzorov e Lydia Nevzorova trouxeram luz ao tema, revelando a crueldade silenciosa imposta aos equinos.

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