‘Eles ficam apavorados’, relata ex-funcionária de matadouro brasileiro

A página O Holocausto Animal entrou em contato no dia 29 outubro de 2016 com uma ex-funcionária de um matadouro brasileiro. Por e-mail, ela nos contou em detalhes o sofrimento que os bovinos suportam durante o abate.

Vaca sendo abatida em matadouro dinamarquês. Katie Currid/2011.

Vaca sendo abatida em matadouro dinamarquês. Foto: Katie Currid/2011.

A Sra. L., que terá sua real identidade preservada por motivos de privacidade e segurança, trabalhou em um matadouro bovino privado localizado no Estado de Rondônia, na região Norte do Brasil, entre os anos de 2000 e 2001. Sua função era embalar as peças dos animais mortos. No entanto, ela nos contou que diversas vezes entrava nos outros setores, inclusive o de abate, no qual presenciou cenas dignas de um filme de terror.

Devido à rotina angustiante de trabalho, Sra. L. pediu demissão ao perceber que o trabalho não estava lhe fazendo bem. Ela decidiu nunca mais trabalhar em matadouros, e hoje não recomenda a função para ninguém.

Nas linhas abaixo, você vai conhecer em detalhes as entranhas de um matadouro brasileiro de bovinos – legalizado, que funciona até hoje e segue as ditas normas de abate “humanitário”. Por dia, são abatidos cerca de 300 animais.

“Não sei ao certo se eles sabem que vão morrer, ou se é o cheiro de sangue que os deixa apavorados para se livrar daquela sequência.”

Qual era a sua função e por quanto tempo você trabalhou lá?

Trabalhei durante um ano. Minha função era fora do abate, com o manuseio das embalagens utilizadas para armazenar as peças de carnes, que seriam depois transportadas para outros estados e também para o exterior; mas eu entrava por todos os setores.

“A maioria é mutilada ainda consciente […] Muitas vacas são abatidas durante a gestação.”

Como os animais eram mortos nesse local?

Os animais chegavam à noite e eram colocados em um curral, ficando confinados até o dia seguinte, no qual seguiam para o abate. No próximo dia, eles eram induzidos a um tanque de água, tipo um piscinão, e dali seguiam para o corredor da morte – era assim que se chamava aquele lugar – onde se iniciam suas agonias.

Não sei ao certo se eles sabem que vão morrer, ou se é o cheiro de sangue que os deixa apavorados para se livrar daquela sequência. Alguns ficavam calados… Pareciam conformados com aquilo. Ao chegar numa espécie de alçapão, individualmente sofriam um impacto com um equipamento. A pressão de ar que atinge o cérebro fazia-os cair para outro ambiente, onde eram guinchados pelas patas traseiras, seguindo para mutilação e perfurações para sangrarem.

Para alguns animais, são necessários vários impactos até caírem, e a maioria é mutilada ainda consciente.

Afinal, os animais sofrem ou não sofrem no matadouro?

Sofrem sim! Alguns animais demoram muito para morrer, principalmente os bois carreiros*. Por serem muito fortes, é necessário mais de uma vez o uso da pistola pneumática.

Alguma vaca grávida já foi abatida nesse local?

Muitas vacas são abatidas durante a gestação; eles retiram o sangue dos bezerros mortos, mas não sei para qual finalidade**. Seus restos são levados para o setor de graxaria, onde são triturados para fazer ração. Algumas vacas dão à luz no confinamento pré-abate. Essas são devolvidas ao pasto com seus filhos.

“Ela [a vaca] esperneou tanto que caiu para trás com as patas para cima.”

Existem relatos de animais que recuperam a consciência depois de dessensibilizados, já na sangria ou desmembramento. Você já viu isso acontecer?

Sim, muitos animais são mutilados ainda conscientes. Presenciei um abate que nunca me esqueci.

Era um boi carreiro enorme e superdócil. Foram necessários vários tiros de pistola pneumática pra ele cair. Quando já estava no guincho, onde começam as mutilações, ele estava com olhos abertos piscando. Ele berrava muito enquanto o faqueiro o perfurava… Mas mesmo assim ele resistia, sangrava muito. Resolvi sair de perto, porque não aguentei.

Outro caso que não me esqueço foi de uma vaca que, no seu desespero, queria pular e voltar para trás do corredor da morte. Mas não tem como, porque o corredor vai se estreitando até que os animais fiquem em fila. Ela esperneou tanto que caiu para trás com as patas para cima. O operador do guincho amarrou ela pela cabeça, acionou a máquina e a puxou, e então era como se ela se quebrasse ao meio. Ela foi arrastada até chegar perto da pistola pneumática para realização do abate.

Esses dois casos foram muito fortes e dolorosos entre todos que presenciei.

“Não recomendo para ninguém.”

Por que você parou de trabalhar lá?

Parei de trabalhar por perceber que não era um trabalho agradável pra mim.

Você recomendaria esse emprego pra alguma pessoa?

Não recomendo para ninguém, porque normalmente pessoas que trabalham nessa área adquirem doenças diversas como LER (lesão por esforço repetitivo), reumatismos, traumas nas vértebras, entre outros problemas.

Você se sentiu afetada emocionalmente por esse trabalho? Como ficou a sua saúde física e mental?

Na verdade, desde a minha infância assistia abates de bovinos, por morar em uma chácara que tinha um matadouro bem simples, que abatia cerca de cinco animais por dia. Então, por estar acostumada a ver, não me afetou muito. Apesar de que no frigorífico considero ser bem mais cruel, devido à quantidade de animais abatidos por dia… Exige uma certa rapidez, não permitindo que o animal esteja morto por completo para realizar as mutilações.


Nota d’O Holocausto Animal:

*Os bois “carreiros” são aqueles usados nas fazendas geralmente para carregar carroças. Em dado tempo, são enviados para o abate.

**A substância colhida do bezerro é chamada de soro fetal bovino, usado em pesquisas de clonagem, fertilização in vitro, cultura de células-tronco e produção de vacinas. Já abordamos esse assunto em um artigo completo. Saiba mais clicando aqui.

Anúncios

8 ideias sobre “‘Eles ficam apavorados’, relata ex-funcionária de matadouro brasileiro

  1. Anônimo

    Gente! Meu Deus, que horrível, comer a carne dessas pobres e inocentes criaturas.
    Depois disso e sabendo desse holocausto, temos que botar a mão na consciência e parar de alimentar essas crueldades.

  2. Erminia Schiano

    SENDO ANIMAIS RACIONAIS OU IRRACIONAIS, NA HORA DO TERROR, ABATE PARA CONSUMO, TUDO QUE CONDIZ MEDO E AGONIA GERA TERROR. É UMA TRISTEZA DESESPERADORA SABER QUE CONSUMIMOS CARNE, E SEJA ELA QUAL FOR, SUÍNA,BOVINA CAPRINA, ESTAMOS INGERINDO O QUE FOI ABATIDO COM HORROR.

    NÃO E A TOA QUE É PREJUDICIAL A SAÚDE E ÍNDICES DE DOENÇAS CADA VEZ MAIOR, CÂNCER, USO DE CARNE VERMELHA E TANTAS OUTRAS, NOS E MERECIDA PELO ABUSO E DESCASO TANTO DOS PRAZERES COMO AQUELES QUE ABATEM SAO FRIOS, NA VERDADE ECONOMIZAM TODOS OS TIPOS DE CRITÉRIO E NO GANHO MONETÁRIO, E FAZEM SEM CORAÇÃO E PIEDADE!

  3. JORGE HADAD

    BOM, EU COMO CARNE, DEPOIS DE LER ESTE TEXTO ME SINTO – TIPO – SEM JEITO. ACHO QUE ENVERGONHADO DE DIZER QUE COMO CARNE. APESAR QUE MUITO POUCO, UMA OU DUAS VESES NA SEMANA, JA PENSEI EM NAO USAR CARNE EM MINHAS REFEIÇOES.

    ACHO QUE ACABO POR ADERIR. É HORRIVEL MESMO… É TERRIVEL, CONSTRANGEDOR. SABE ME SENTI MUITO MAL.

  4. Edvaldo Bezerra Silva.

    Às vezes me pergunto se é certo o que Deus fez, em relação ao ser humano.

    Por que teria ele deixado o tal ser humano? E já que nos deixou, por que deixou os inocentes animais para que nós, feito bestas desumanas, só os causasse destruição.

    Me pergunto também, o que que esses animais fizeram de tão ruim para alguém, para serem tão castigados?

    Sem demagogia; muitas vezes acho-me a pior especie que deus deixou. Sinto inveja muitas vezes dos animais que tem mais humildade do que nos mesmos, inocentes puros e sem maldades.

    Quanto a nos, somos perversos sem escrúpulos e maldosos, nem sabemos o que é humildade, e ainda tem gente que se acha importante, e se orgulha de ser. Míseros pecadores pobres de espíritos que se olhassem para dentro de se sentiriam nojo de si próprios. É o meu desabafo, e tenho certeza que não se peca quando se fala a verdade.

  5. Pingback: “Eles ficam apavorados”, relata ex-funcionária de matadouro brasileiro – MudandOmundo (aos poucos)

  6. Jemima Quiles

    Quanta crueldade meu Deus, sempre que tento falar isso p as pessoas que comem carne elas falam que nada haver e que se elas pararem nem vai fazer diferença.
    As pessoas precisam acordar se colocar no lugar dos animais ao menos por um instange!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s