Organização europeia diz que a psiquiatria precisa parar de testar em animais

Antidote Europe oferece argumentos contra a experimentação animal.

Entidade alerta que usar os animais como modelos confiáveis para humanos é como jogar uma “roleta russa” com a vida do paciente.
Entidade diz que usar os animais como modelos confiáveis para humanos é como jogar uma “roleta russa” com a vida do paciente

A Antidote Europe é uma organização europeia sem fins lucrativos, composta por cientistas e pesquisadores que se opõem à experimentação animal. De acordo com a organização, tal posição é adotada por razões “estritamente científicas”.

Dr. Claude Reiss faz parte da equipe. Médico, ele ocupou durante 30 anos o cargo da diretoria do Centro Nacional da Pesquisa Científica (CNRS). O CNRS é nada menos do que o maior órgão público de pesquisa científica da França, e também um dos mais importantes do mundo.

Reiss afirma que confiar no modelo animal “é como jogar uma roleta russa com a vida do paciente”¹. Já para o médico veterinário Dr. Andre Menache, diretor da Antidote Europe, a discussão do “modelo animal” é particularmente preocupante nas pesquisas da área psiquiátrica. Ele alerta que usar outras espécies como modelos para doenças mentais humanas – como esquizofrenia e depressão –, tem sido um péssimo caminho adotado pelos cientistas da área. Isso porque, de acordo com Menache, a maioria dos transtornos mentais relatados no DSM, manual de diagnóstico da psiquiatria, não possui qualquer nível de equivalência com a situação vivida nos animais de laboratório.

Dr. Menache escreveu um artigo, publicado na Psychiatric Times, no qual discute especialmente a problemática dos “modelos animais” na psiquiatria². O artigo, que inclui uma série de referências científicas, revela que a maioria das descobertas das drogas psiquiátricas foram feitas “ao acaso”, e não com o uso de animais. Por exemplo, o medicamento Isoniazida era originalmente utilizado para o tratamento de tuberculose, porém, em 1957, através da observação clínica se descobriu que ele possuía propriedade antidepressiva. Posteriormente, a Isoniazida foi substituída por antidepressivos tricíclicos (ADTs), que atuam diretamente nas sinapses neuronais.

A descoberta da clorpromazina também segue um roteiro semelhante, uma vez que era utilizada como anestésico, mas que, com a prática clínica, se descobriu que era eficaz no tratamento de pacientes esquizofrênicos. Com o lítio, a história se repete. Ele foi relatado em 1949, pelo médico John Cade, como eficaz na indução do efeito calmante em seres humanos. Cade chegou a esta conclusão com a experiência clínica. As benzodiazepinas, também usadas hoje para o tratamento da esquizofrenia, foram descobertas acidentalmente em 1955. E as drogas mais recentes, denominadas de SSRIS, começaram a ser produzidas a partir do conhecimento da estrutura química de substâncias, por meio da análise do desenho racional de drogas.

Todos estes exemplos atingem diretamente a espinha dorsal do argumento do “modelo animal”. Se os medicamentos foram e continuam sendo descobertos por modelos que não usem animais, então toda a ideia de “necessidade” absoluta da pesquisa animal cai por terra.

Menache também aponta que os testes em animais não conseguem “prever” os efeitos que uma droga causará em humanos. A Tirilazad, uma droga cotada para o tratamento de AVC, por exemplo, teve resultados promissores em testes feitos em animais, mas quando foi usada por pacientes humanos, piorou o quadro do derrame.

Assim, Menache conclui que a tendência da ciência atual é um caminho sem as pesquisas com animais. Uma mensagem que é, infelizmente, amplamente ignorada por boa parte da comunidade científica, ainda bastante relutante em adotar a ciência do século XXI. Até que estes se dobrem às evidências, continuaremos produzindo efeitos danosos para os animais, humanos e não-humanos.

 Referências

¹Dr Claude Reiss, DLRM Newsletter, No.9, Autumn 2002.

²Menache, Andre. Are Animal Models Relevant in Modern Psychiatry?, Psychiatric Times, February 28, 2012.

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