Cientistas afirmam que usar droga testada em animais é uma “loucura”

Contrariando a crença de que os testes em animais garantiriam a eficácia ou segurança de uma droga, os cientistas demonstraram extrema preocupação com a liberação da fosfoetanolamina, substância supostamente anticâncer desenvolvida na USP de São Carlos (Universidade de São Paulo).

Cientistas alertam que utilizar droga testada em animais é “altamente perigoso”.
Cientistas alertam que utilizar droga testada em animais é “altamente perigoso”.

A fosfoetanolamina foi estudada e fabricada de forma independente por Gilberto Orivaldo Chierice, do Instituto de Química da USP de São Carlos. Por mais de 20 anos, Gilberto Chierice pesquisou as propriedades e características da fosfoetanolamina no organismo de outras espécies, passando a produzir uma versão sintética da substância. E então a droga passou a ser distribuída como medicamento por Carlos Kennedy Witthoeft, parceiro de Chierice [1].

Recentemente, a justiça proibiu a circulação da droga, recuando a decisão após o apelo de pacientes com câncer que a estavam ingerindo. No entanto, a ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) declarou que a entrega da fosfoetanolamina é ilegal, pois não passou pelos processos tradicionais para avaliação da sua eficácia e segurança em humanos.

De acordo com Evanius Wiermann, ex-presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica, o caso é nada menos do que uma “loucura”, e “os pacientes estão sendo feitos de cobaia sem garantia nenhuma de segurança ou de eficácia” [2].

“É muito difícil partir de dados pequenos em animais para uso populacional. É altamente perigoso. Se a população usa essa droga e ela for deletéria, como a gente vai saber? E vai comparar com o quê?”, afirma Gustavo Fernandes, novo presidente da SBOC [3].

Até agora, a droga apenas foi testada em animais e em células in vitro, sem passar pela fase clínica com humanos.

O Instituto Butantan defende a liberação da droga apenas com base no procedimento in vitro, que revelou suposta eficácia no combate em células cancerígenas.

O receio da comunidade científica com a liberação da droga confirma que usar dados de estudos com animais, para demonstrar a eficácia ou segurança de uma droga, é uma cilada. Curiosamente, os mesmos indivíduos que outrora eram defensores desta prática, agora resolveram admitir este fato, reiterando o que os críticos da experimentação animal não cansam de falar: a medicina precisa se basear em humanos, não em outras espécies.

Referências

[1] Jornal de Santa Catarina. Como começou a produção e o uso da substância manipulada por morador de Pomerode para combater o câncer. 24 de setembro, 2015.

[2] Folha de São Paulo. Justiça libera suposta droga contra o câncer sem testes em humanos. São Carlos, 15 de outubro, 2015.

[3] UOL Notícias. Droga da USP não tem ação comprovada contra câncer; Anvisa diz que é ilegal. São Paulo, 16 de outubro, 2015.

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2 respostas para “Cientistas afirmam que usar droga testada em animais é uma “loucura””

  1. Novidade: USP vai entregar droga pelo correio mesmo SEM ela ter sido testada em humanos:
    http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2015/10/17/usp-vai-entregar-pilula-contra-cancer-pelo-correio.htm?cmpid=fb-uolnot

    A Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC) está se movimentando para impedir a circulação da droga.

    **A reportagem da Folha de SP confunde quem é o atual presidente da SBOC com o novo presidente eleito.

    Gustavo Fernandes foi eleito presidente da Sociedade este ano (2015), ocupando o lugar de Evanius Wiermann. A posse só acontece no próximo dia 29 de outubro, porém, já alteramos os cargos no artigo de acordo com a nova configuração:
    http://www.onconews.com.br/site/noticias/noticias/radar/1296-eleito-novo-presidente-da-sboc.html

  2. Na hora do “vamos ver”, a experimentação animal não garante nada.
    Mas na hora de botar o checão do financiamento de pesquisa no bolso pra torturar animais inocentes, funciona que é uma beleza…

    Asqueroso. Tanto o sistema, como quem compactua com ele.

    “Há, de fato, apenas duas categorias de médicos e cientistas que não se opõem à experimentação animal: aqueles que não sabem o suficiente sobre o assunto e aqueles que fazem dinheiro com isso.”
    – Dr. Werner Hartinger

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