Biólogo afirma que podemos acabar com os testes em animais

No debate sobre a experimentação animal, podemos encontrar diversas personalidades contra o método. Um destes notáveis exemplos é o biólogo molecular Frank Alarcón, com graduação na UNICAMP, mestre em físico-química (USP) e doutorado em bioética (UFF).

Pesquisa Animal

Frank também é coordenador da Cruelty Free International no Brasil, que atua mundialmente para interromper a exploração animal institucionalizada. Em nossa entrevista, ele apontou que continuar utilizando os animais na ciência é prejudicial para a saúde humana, revelando que as leis de “bem-estar”, que supostamente deveriam proteger os animais, nada mais são do que uma forma de permitir o abuso dos mesmos.

Abaixo, você confere a entrevista completa, realizada por e-mail no dia 16 de junho de 2015.

“Em suma: fazemos com milhões de animais diariamente, há séculos, aquilo que não cogitamos fazê-lo institucionalmente com o pior ser humano existente na história.”

Laboratórios de pesquisa animal são sempre isolados e inacessíveis ao público em geral, de modo que pessoas comuns não têm acesso ou conhecimento do que realmente se passa nesses ambientes. Como profissional da ciência acostumado ao jargão técnico-científico da área e ao convívio com cientistas das ciências biológicas de diversos níveis, como você descreveria a vida de um animal em um laboratório de pesquisas?

Qualquer descrição sobre o martírio a que são submetidos esses animais será incompleta. O que pode ser razoavelmente afirmado, diante da vasta quantidade de informações alusivas à complexa cognição e emoção animal, é que animais de laboratório têm uma experiência de vida miserável e infeliz. Não é difícil concluir isso mesmo não sendo um cientista: animais são afastados de seus grupos familiares de origem, são impedidos de uma vida social autêntica, são enclausurados em espaços gélidos e diminutos (caixas, gaiolas), são alimentados com rações insípidas e de custo e qualidade duvidosa, são sujeitos à manipulação grosseira e constante, são submetidos a toda sorte de tortura física e emocional (lesão de nervos, músculos, mucosas, órgãos e membros, privação de luz e/ou escuridão, privação de água e/ou comida, privação de convívio social, intervenções cirúrgicas sem anestésicos, choques elétricos, queimaduras, etc.) e finalmente, após semanas ou meses vividos em um cenário de horror, assassinados. Em suma: fazemos com milhões de animais diariamente, há séculos, aquilo que não cogitamos fazê-lo institucionalmente com o pior ser humano existente na história.

“A única coisa que podemos afirmar com bastante solidez é que os supostos protocolos de ‘bem-estar’ elaborados pelos defensores da experimentação animal, mascaram e perpetuam práticas de abuso contra vulneráveis.”

Defensores da experimentação animal argumentam que ela é feita de acordo com rígidos protocolos de bem-estar, incluindo a aprovação e fiscalização dos experimentos por parte dos assim chamados Comitês de Ética. Até que ponto esse aparato burocrático favorece os animais?

O que seriam protocolos de “bem-estar”? Como poderíamos afirmar o “bem-estar” de indivíduos que possuem uma experiência e perspectiva singular de mundo? Humanos, mesmo dotados de instrumentos linguísticos, têm sérias limitações para compreender com precisão o bem estar de seu “semelhante” – o que diremos então quanto à nossa incapacidade de acessar a experiência de bem-estar de outras espécies com as quais não nos comunicamos? A única coisa que podemos afirmar com bastante solidez é que os supostos protocolos de “bem-estar” elaborados pelos defensores da experimentação animal, mascaram e perpetuam práticas de abuso contra vulneráveis. Dado que defensores dessa prática têm pleno interesse em perpetuar a instrumentalização animal, nada mais óbvio que colocá-los sob suspeição em função do evidente e enorme conflito de interesses.

Comitês de “Ética” de Uso Animal (CEUAs) nada mais são do que instâncias reconhecidas por lei (11.794/2008) que protegem e mantém vivo o abuso animal. Graças à burocracia, à falta de transparência e ao assédio moral, CEUAs e laboratórios que utilizam animais estão blindados à denúncia dos próprios membros que frequentam esses ambientes – e que seriam as possíveis testemunhas dos absurdos praticados contra animais. Imagine um aluno bolsista ou que busque um cargo acadêmico em uma instituição que pratique experimentação animal. O que é mais provável? (a) Que ele denuncie seus pares que lhe concedem rendimentos, possibilidade de publicações científicas, avaliações positivas em pareceres e um possível futuro cargo acadêmico ou (b) que ele se cale com medo de colocar em risco seu incerto futuro profissional? Ainda que estes personagens fizessem denúncias daquilo discutido ou praticado em uma CEUA ou em um laboratório, quem irá depor em seu favor e associar-se publicamente a alguém que está disposto a arriscar seu futuro profissional em defesa de animais de laboratório? A burocracia e a falta de transparência favorecem o abuso. E a comunidade científica sabe disso.

Em um vídeo publicado no YouTube, você fez duras críticas à experimentação animal, sobretudo na figura do cientista Miguel Nicolelis e seu projeto “Andar de Novo”. Passada a apresentação do exoesqueleto na Copa, qual a sua conclusão sobre esse projeto?

As críticas divulgadas aplicam-se a qualquer outro pesquisador, brasileiro ou não, envolvido com experimentação animal. São todos iguais nesse sentido. No que diz respeito ao projeto de Miguel Nicolelis, seu projeto pode ser avaliado sob inúmeros aspectos. Atenho-me ao científico, político e ético. Em termos científicos, uma significativa parcela da própria comunidade científica – nacional e internacional – criticou não somente o desenrolar desse projeto, como seus resultados. Não houve esclarecimento de uma série de detalhes científicos, não houve análise por pares da relevância de muitas estratégias adotadas, não houve sequer uma apresentação a contento do resultado final do projeto na cerimônia de abertura da Copa do Mundo 2014.

Um paciente vestido com o exoesqueleto parece essencialmente ter um espasmo elétrico-muscular que lhe faz tocar de forma patética a bola em um plano ligeiramente inclinado. É incorreto dizer que esse resultado é científico e compatível com um investimento de 33 milhões de reais. Sob o aspecto político, resulta absurdo em um país com enormes carências econômico-sociais, assistir a liberação de 33 milhões de reais para apenas um único pesquisador e um único projeto de pesquisa (verba esta que poderia ter sido usada para construir cerca de 10 mil casas populares), montante este posteriormente ampliado em mais 250 milhões de reais para a construção de um centro de educação e formação juvenil que certamente envolverá mais experimentação animal (convenientemente longe da necessária fiscalização). Sob o aspecto ético, defender a submissão, à revelia, de criaturas vulneráveis e sencientes à insaciável sanha pelo conhecimento equivale a dizer que obviamente tudo podemos fazer visando um determinado fim, não importa quem iremos ferir durante o trajeto. Podemos dizer que a comunidade científica dá claras mostras de padecer de um sério analfabetismo filosófico.

“O secreto desejo de uma boa parcela dos cientistas é poder experimentar em humanos sem sofrer as consequências morais e políticas (e de sua consciência) desse abuso.”

Ainda sobre Miguel Nicolelis, seu novo empreendimento, “Campus do Cérebro”, vem sendo formalmente questionado por cientistas (um abaixo assinado foi enviado ao MEC), devido ao alto valor do investimento (R$ 250 milhões) bem como possíveis irregularidades na liberação do dinheiro. Qual a sua opinião sobre esse novo projeto?

No mínimo suspeito. Por trás de um discurso “altruísta”, um centro milionário será implantado em área próxima de fauna e flora tradicional e selvagem, apartada e carente de qualquer fiscalização decente, cuja população alvo cobaia possivelmente será submetida a um discurso sedutor e manipulador, e que servirá naturalmente para catapultar o currículo de seus integrantes junto à comunidade científica por meios nada ortodoxos. Isso, claro, sem mencionar que mais e mais animais serão utilizados em secretos e inacessíveis experimentos científicos. Projetos dessa natureza, tal como a implantação do REBIOTÉRIO (CNPq PO-106/2015; DOU 15/05/2015, Seção 2, pág. 10), atendem todos interesses muito suspeitos e pouco transparentes. A única certeza diz respeito à natureza das vítimas: animais não-humanos.

Muitos vivisseccionistas, embora assumam o sofrimento inerente à experimentação animal, argumentam que ela é necessária para o progresso médico e científico. O que você teria a dizer para essas pessoas?

Que se o sofrimento é um aspecto inevitável para o alcance do supremo conhecimento, pouparíamos imenso tempo e dinheiro fazendo a experimentação, desde que consentida, diretamente em humanos. Voluntários não faltariam. Assim como inúmeros humanos submetem-se a míseros salários para arriscar suas vidas diariamente por terceiros desconhecidos (polícia, bombeiros, forças especiais, etc), há uma vasta quantidade de pessoas dispostas a entrar para a História por muito menos e contribuir com o progresso humano mediante o reconhecimento ou retribuição adequada (ver projeto Mars One com mais de 200 mil inscritos).

A verdadeira questão de fundo é que animais não-humanos são usados porque não podem se defender, diminuem custos e alimentam uma indústria bilionária. O secreto desejo de uma boa parcela dos cientistas é poder experimentar em humanos sem sofrer as consequências morais e políticas (e de sua consciência) desse abuso. Não é novidade: A vaidade e a curiosidade movem o cientista.

“A questão central é que a biologia humana é demasiadamente singular para querer que um medicamento bem sucedido em um rato tenha a mesma performance em um ser humano. […] Eu chamo isso de ciência quebra-galho.”

É possível desenvolver medicamentos sem a experimentação animal?

Certamente. Mas não também sem consequências negativas. Assim como os primeiros navegadores lançaram-se ao mar sem segurança alguma com o intuito de descobrir novos horizontes ou continentes, o mesmo aconteceria se abandonássemos a experimentação com animais não-humanos. Certamente, para entender com maior precisão e confiança a natureza biológica humana, as cobaias precisam ser humanas (ou substratos humanos como mini-órgãos). A questão central é que a biologia humana é demasiadamente singular para querer que um medicamento bem sucedido em um rato tenha a mesma performance em um ser humano. Trabalhamos com achismos. Eu chamo isso de ciência quebra-galho. Basta ver a coleção de inúmeros efeitos colaterais possíveis, existentes em cada bula de remédio lançado no mercado. Como um mesmo princípio pode desencadear tantas reações distintas em uma população supostamente homogênea (pertencente à mesma espécie)? A resposta óbvia a essa pergunta demonstra o inexistente grau de eficiência no uso de animais como baliza de segurança para consumo humano.

Vivisseccionistas querem acreditar no cúmulo de correr riscos em segurança (como quem anda em uma montanha-russa: sente de perto o perigo, mas entende que sairá de lá em segurança). Nas ciências biológicas contudo, uma boa dose de incerteza é inerente ao processo, justamente porque sabemos muito pouco sobre como são regidos os caóticos processos moleculares intra e intercelulares. O que diremos então dos processos sistêmicos? Logo, enquanto experimentos não forem feitos com humanos (ou substratos humanos), estamos tateando de olhos vendados em um terreno biológico desconhecido, dada sua complexidade molecular.

Em 2011, o neurocientista Miguel Nicolelis afirmou que em “3 ou 4 anos” faria “pessoas paralisadas andarem novamente”. Notavelmente, tal promessa fracassou. Por que vemos tantas promessas médicas, com base no modelo animal, fracassarem?

Porque cientistas se deixam levar pelas expectativas. Auto-engano. Em alguns, má fé. Um projeto fracassado é um bom ponto de partida para novas requisições orçamentárias e mais experimentação animal. Conhecer ratos não significa conhecer humanos. A diferença genômica de cerca de 2% entre chimpanzés e humanos é suficiente para que chimpanzés sejam distintos de humanos. O que dizer da diferença genômica (para citar apenas uma) de 40% entre camundongos ou ratos de seres humanos? Absurdo, não? Mas ratos e camundongos são a principal ferramenta de exploração animal na ciência.

Se os testes em animais são ineficazes, por qual motivo boa parte dos cientistas ainda se baseia neste modelo?

Alguém certa vez disse: “Quando pessoas espertas tomam uma direção errada no começo de um processo, frequentemente caminham por um longo tempo antes de identificarem e reconhecerem seus próprios erros.”. Os motivos são muitos: vaidade, orgulho, dogmatismo, estrutura de trabalho já estabelecida (ainda que equivocada), abuso de poder, perpetuação de um sistema que traz benefícios (não necessariamente científicos), incapacidade de abandonar um sistema de pensamento forjado por décadas, desprezo pelo outro etc.

“O leque de interesses é muito vasto. Nenhum desses interesses leva em consideração os animais torturados.”

De que forma o governo e os laboratórios de pesquisa privados estão lucrando com a experimentação animal?

Subsídios governamentais, favorecimento licitatório, repasse de verbas para clientes previamente acordados, perpetuação de gastos em propriedade industrial, geração de empregos, isenções fiscais, projeção do país internacionalmente, contratos de transferência de tecnologia, inauguração de plantas industriais, tributações sobre importações, exploração de nichos mercadológicos (venda de fármacos), abertura de frentes políticas. O leque de interesses é muito vasto. Nenhum desses interesses leva em consideração os animais torturados. Exceto considerando claro, quando o assunto é o valor no mercado de animais criados em biotérios.

Podemos parar imediatamente com a experimentação animal, sem prejuízos à ciência?

A ciência já incorpora prejuízos imensos com a experimentação animal. Diria que se trata mais de uma questão de troca de prejuízos. Remédios supostamente eficientes hoje não chegam às partes interessadas por uma questão de custo. Logo, “bons” fármacos existem e não são usados como poderiam pelas partes interessadas, levando estas inevitavelmente à morte. O abandono da experimentação animal certamente traria consequências clínicas, isto é, mortes. A questão é: devemos perpetuar um sistema ineficaz de baixo rendimento porque ele nos possibilita suaves flutuações e poucas novidades no longo prazo ou devemos buscar eficiência e acurácia perenes ainda que às custas de flutuações maiores no curto prazo? Não há tomada de decisão sem riscos ou consequências. Ética é essencialmente o desafio de refletir sobre tomadas de decisão que envolvam terceiros.

A questão central é: temos o direito de decidir a vida de terceiros visando benefícios em primeira pessoa? O fato de que possamos fazer algo não significa que devamos fazê-lo. A comunidade científica não se esforça em entender que o que ela faz é cientificamente retrógrado e eticamente equivocado. Ou talvez perceba isso, mas por motivos óbvios prefira o silêncio ou enganar a sociedade civil.

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