‘A substituição é um processo sem volta’, afirma vencedor de prêmio contra testes em animais

Róber Bachinski é biólogo pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS, mestre em saúde pública e meio ambiente, e doutorando em biotecnologia pela Universidade Federal Fluminense – UFF.

(Foto: Lush Prize)

(Foto: Lush Prize)

Recentemente, Róber esteve em evidência na mídia por ser o primeiro brasileiro a receber o Lush Prize, prêmio internacional que visa dar reconhecimento a organizações e cientistas que trabalham para a substituição de experimentos animais por métodos alternativos livres de crueldade e com validação científica.

E não é a primeira vez que Róber Bachinski faz história. Em 2006, com apenas 21 anos, o então estudante de biologia abriu um processo contra a Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS, se recusando a participar de aulas de vivissecção, o que o tornou a primeira pessoa no Brasil a invocar o direito constitucional de objeção de consciência, a favor dos animais. Hoje ele auxilia estudantes que também não querem participar desse tipo de atividade.

Para saber mais detalhes, confira abaixo a entrevista que realizamos com ele por e-mail no dia 5 de dezembro de 2014.

“A academia ainda não é um lugar democrático. Os professores mantêm uma relação de poder e não dialogam com os alunos.”

Por qual motivo você se recusou a participar das aulas que usavam animais?

Quando comecei a cursar biologia, eu já estudava e lia sobre ética animal e uso de animais na ciência. Durante o Ensino Médio, fiz técnico em zootecnia, que me mostrou todas as práticas utilizadas na criação animal. Isso fez com que eu me tornasse vegetariano, como mecanismo de boicote a indústria e, posteriormente, vegano. Quando entrei no curso de biologia, decidi boicotar as aulas também, não através de desobediência civil, mas de um processo baseado na Constituição Federal e na Declaração Universal dos Direitos Humanos, ninguém pode ser discriminado ou obrigado a fazer uma atividade contra suas convicções morais. Assim, tentei dialogar com os professores, após entrei com processo interno na universidade, e então, como não havia essa possibilidade de diálogo, resolvi entrar no judiciário para defender esse direito. Mas o motivo sempre foi o mesmo desde que decidi me tornar vegetariano: boicotar as práticas que desconsideram os interesses básicos dos animais, apenas por eles serem animais. Isso é um preconceito. Tratar interesses iguais de maneira diferente por características que não influenciam na formação desses interesses. Em relação aos animais, o nome é Especismo. Como desconsiderar os interesses dos negros e das mulheres apenas por serem de cor ou de sexo diferente é racismo e sexismo.

Quais principais resistências você enfrentou na época?                                  

A resistência se deu mais na falta de preparo dos professores para diálogo. Isso é normal na academia, infelizmente. Hoje recebo muitos alunos falando que estão sendo oprimidos pelos professores. A academia ainda não é um lugar democrático. Os professores mantêm uma relação de poder e não dialogam com os alunos. Além disso, os professores, como no meu caso, incentivam que os outros alunos isolem ou que oprimam os alunos objetores (que não querem utilizar animais). São os dois tipos de opressão do sistema de opressão. A opressão que parte do opressor para o oprimido e a opressão que parte dos oprimidos para o oprimido que se revolta contra o sistema, pois eles têm medo de todos sofrerem a retaliação por parte do opressor. Isso foi descrito por Paulo Freire e é bastante característico nessa situação.

“Infelizmente há um desconhecimento sobre novos métodos de ensino. Os professores foram formados em um paradigma onde o uso de animais era uma prática banalizada, sem nenhuma restrição, debate ou crítica.”

Pesquisadores costumam dizer que a lei permite atividades didáticas com animais. Em qual nível a legislação brasileira oferece amparo para que tais experiências não ocorram?

Embora a Lei 9605/98 no artigo 32 diga que não devemos utilizar animais quando há alternativas, os professores desconhecem a lei e as alternativas. Então, eles se respaldam em uma falta de informação. Além disso, os professores alegam que possuem autonomia didática, mas não realizam que a autonomia didática deles possui limites na legislação e no direito dos estudantes. A lei Arouca (11794/2008) também estabelece limites quando, por exemplo, aconselha os professores a gravarem suas aulas. As aulas de fisiologia são passíveis de gravação e reprodução, sem a necessidade de utilizar animais nos próximos semestres.

“Aulas com animais, muitas vezes, atraem a atenção apenas para o ‘circo’ e não para o conteúdo. Elas mais atrapalham a internalização do conteúdo que ajudam.”

Alguns professores alegam que o uso de animais é indispensável para uma boa formação profissional. Qual é a sua resposta para este tipo de afirmação?

Infelizmente há um desconhecimento sobre novos métodos de ensino. Os professores foram formados em um paradigma onde o uso de animais era uma prática banalizada, sem nenhuma restrição, debate ou crítica. Hoje, eles estão em um sistema que os sobrecarrega: preparar aulas, orientar pesquisas, escrever projetos, gerenciar recursos, fazer trabalhos de extensão, etc. E realmente acredito que eles queiram fazer tudo da melhor forma possível, assim não tem tempo para mudar as aulas práticas e também querem manter o que acreditam funcionar. A universidade, o governo e os estudantes devem estar ao lado desses professores, auxiliando a implementação de novas técnicas de aulas. Muitos materiais e novas técnicas já foram desenvolvidos, inclusive no Brasil. Indispensável é uma boa aula, diálogo e aulas participativas, onde o aluno vai pensar sobre o problema e internalizar o conhecimento naturalmente. Aulas com animais, muitas vezes, atraem a atenção apenas para o “circo” e não para o conteúdo. Elas mais atrapalham a internalização do conteúdo do que ajudam. Aulas baseadas em problemas, integração entre alunos e metodologias ativas do conhecimento, favorecem a formação do conhecimento no aluno e motivam para que novos conteúdos sejam aprendidos.

As alternativas disponíveis hoje substituem os animais usados para fins didáticos?

Sim, hoje não necessitamos utilizar animais para nenhum curso de graduação. Muitas universidades já fazem isso. Por exemplo, a Faculdade de Medicina da UFRGS não utiliza animais desde 2006, para nenhuma classe. A Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP não utiliza animais para as aulas de anatomia e técnica cirúrgica. Em muitos países, aulas com animais são vistas como retrógradas. A 1Rnet (www.1rnet.org), que estamos, eu, Prof. Thales Tréz e mais 6 pesquisadores no Brasil, oficializando como uma organização científica para auxílio de professores e estudantes e para fazer pesquisa em métodos focados especialmente na substituição dos testes animais (1Rnet – Instituto para Pesquisa e Promoção da Substituição dos Experimentos em Animais), quer trabalhar com os professores, com o governo e com a indústria para auxiliar os professores no Brasil a entenderem essas novas técnicas e para que elas possam ser disponibilizadas mais facilmente para o sistema público. Para conhecer mais o trabalho, podem curtir a página www.facebook.com/1rnet

“Ou o Brasil começa a avançar para uma ciência do Século XXI, ou vamos sempre ficar atrasados tecnologicamente em relação aos países que estão investindo nessa questão nas últimas três décadas.”

Países como Alemanha e Inglaterra não usam animais em ensino. O que impede que outros países, como o Brasil, se igualem à esta realidade?

Há sete anos atrás, pouco se falava em métodos alternativos no Brasil. Nos últimos anos, esse assunto tem começado a ser mais discutido, pela própria formação da Rede Nacional de Métodos Alternativos (RENAMA) e pelo Conselho Brasileiro para Controle da Experimentação Animal (CONCEA) que está incentivando esses métodos. Assim, o desconhecimento por parte dos professores que trabalham com animais ainda é um fator limitante para a implementação de métodos alternativos ao uso de animais nas aulas práticas. Mas essa substituição já é um processo sem volta. Ou o Brasil começa a avançar para uma ciência do Século XXI, priorizando melhores modelos In Vitro, com uma ciência mais ética e metodologicamente coerente, ou vamos sempre ficar atrasados tecnologicamente em relação aos países que estão investindo nessa questão nas últimas três décadas.

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4 ideias sobre “‘A substituição é um processo sem volta’, afirma vencedor de prêmio contra testes em animais

  1. Marcelo Leite

    E as pesquisas cientificas? Os cientistas tem se empenhado em reduzir o número de animais utilizados em pesquisa, mas por enquanto é impossível substituir por completo o seu uso. Nesse caso, como fica os formando?

    Ou já é possível realizar TODAS as pesquisas sem uso de animais? Parece que não.

  2. Marcos Autor do post

    Oi Marcelo, tudo bom? Há um equívoco em achar que testes em animais são preditivos, eficazes ou necessários. Na verdade, não são. Por exemplo, a vacina da varíola foi desenvolvida sem nenhum teste animal controlado (ela foi testada diretamente em humanos):
    https://oholocaustoanimal.wordpress.com/2014/01/22/vacina-da-variola-foi-desenvolvida-sem-nenhuma-pesquisa-animal/

    Além disso, outros tratamentos e curas só foram possíveis através da fase clínica, uma vez que testes em animais falham em produzir resultados que possam ser transferidos entre as espécies.

    Veja o seguinte artigo:
    http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2254450/

    Um dado do próprio FDA é de que 92% de todas as drogas testadas em animais falham em nossa espécie.

    Fonte: http://www.fda.gov/downloads/ScienceResearch/SpecialTopics/CriticalPathInitiative/CriticalPathOpportunitiesReports/ucm113411.pdf

    O governo dos EUA investe hoje 12 bilhões de dólares em pesquisa animal. Estes fundos precisam ser transferidos para o desenvolvimento de novos métodos. Isso sem falar do aspecto ético – não é correto usar animais em nosso benefício.

    Você já leu a entrevista que fizemos com uma pesquisadora brasileira, Mestre em Psicologia Experimental? Ela defende o fim dos testes em animais. Leia que você vai entender melhor.

    https://oholocaustoanimal.wordpress.com/2014/11/16/especialista-em-psicologia-experimental-defende-fim-dos-testes-em-animais/

  3. Gabriel

    Olá, Marcos !
    Parabéns pela matéria! Vc tem algum canal no YouTube informativo sobre esses tema de testes clínicos? Caso não, sugiro que faça pra melhor divulgação do tema e desmistificar essas ideologias dos testes em animais,pois pra mim mesmo que são ideologias mesmo já que não funcionam na maioria dos casos. Muito obrigado pelo esclarecimento!

  4. Marcos Autor do post

    Olá, Gabriel! Obrigado pelo comentário. Temos um canal no YouTube. Lá você pode encontrar vários vídeos sobre o tema. Recentemente, foi lançado o documentário “A Cobaia”, que fala só sobre testes em animais. Confere lá:

    Abraços!

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