Especialista em psicologia experimental defende fim dos testes em animais

Natalia de Souza Albuquerque afirma que o uso de animais deve ser substituído por métodos modernos.

Rato

O uso de animais na ciência costuma ser visto como algo necessário para o seu progresso e desenvolvimento. De um lado, pesquisadores defendem a continuidade de práticas tradicionais, com resultados duvidosos. De outro, cientistas apoiam o fim da experimentação animal – neste ponto está Natalia de Souza Albuquerque, bióloga pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e mestre em psicologia experimental pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), com ênfase em comportamento animal.

Natalia defende a substituição de animais em pesquisas invasivas por métodos científicos que não se fundamentem em confinamento ou tortura de quaisquer espécies. Ela esclareceu que um dos principais empecilhos para que esta mudança de paradigma ocorra é a tradição acadêmica e ideológica dos próprios pesquisadores, além do fator financeiro, defendendo, ainda, que só temos a ganhar com o fim da “experimentação animal”.

Confira a entrevista completa abaixo, realizada por e-mail com exclusividade no dia 16 de novembro de 2014.

“Defender o fim da experimentação animal não é ser anticientífico, muito menos significa lutar contra o progresso da ciência.”

Você sempre foi contrária aos testes em animais?

Desde muito pequena sempre tive um grande amor e respeito pelos animais não-humanos, o que me remete a um perfil vinciano [Em referência à Leonardo da Vinci, que era vegetariano e defensor dos animais não humanos], como diria Tom Regan. Ao longo da minha trajetória de vida, à medida que meu carinho pelos bichos se fortalecia, se construía uma curiosidade e fascínio cada vez maiores para entender as complexas criaturas que habitam este mundo, especialmente os animais. O grande salto qualitativo, no entanto, veio quando eu me percebi como o animal que sou e integralmente entendi que cada indivíduo, independente da espécie, tem desejos, necessidades, sente dor, possui emoções e tem direito à liberdade – e até a correr os riscos que acompanham o “ser livre”. Sou contra toda e qualquer tipo de exploração animal (humana e não-humana) e não poderia ser diferente quanto à esfera da experimentação.

Meu sério criticismo ao uso de animais em testes invasivos começou a partir do imediato momento em que tomei conhecimento da existência dos mesmos: cada um é livre para fazer o que quiser, desde que não fira a liberdade e a integridade (física e psicológica) do outro. Inicialmente, o sentimento era de revolta, por carregar uma compaixão que me fazia desejar bem aos animais e uma ética que me impelia a lutar por justiça. Mais adiante, através de um amadurecimento profissional, o esforço pelo fim da experimentação animal se materializou também como responsabilidade científica, uma vez que sua validade se torna cada vez mais duvidosa.

Não acredito em uma ciência que se fundamenta na tortura e na morte de animais. Não aceito metodologias que envolvam confinamento e assassinato de seres sensíveis, tão sujeitos e atores do mundo quanto eu. Não admito um paradigma baseado em um paradoxo lógico: animais (não-humanos) são iguais a mim o suficiente para que eu possa extrapolar os achados das pesquisas para seres humanos, mas são diferentes de mim o suficiente para que eu tenha o direito de utilizá-los em testes altamente cruéis; muito menos uma ciência que é comandada por gigantes empresas, que trabalham pelo dinheiro e pelas doenças, não pelas curas.

O que se estuda em psicologia experimental?

A psicologia experimental é uma ciência que estuda diversos mecanismos comportamentais, tanto em humanos quanto em não-humanos e, como o próprio nome diz, utiliza-se de testes para validar, discutir e criar hipóteses e teorias. O surgimento da psicologia experimental possibilitou que os estudos da cognição e do comportamento se tornassem uma ciência objetiva, em que medidas quantitativas também pudessem ser feitas. Ao mesmo tempo, também significou uma forte tendência de manipulação da natureza e dos animais, no sentido de obtenção de dados a partir da investigação de variáveis específicas em ambientes “controlados”.

Dentro da psicologia experimental, diversas linhas de pesquisa se constituem, entre elas a da análise do comportamento (i.e. behaviorismo) e a etologia [disciplina que estuda o comportamento animal] e a psicologia evolucionista. Independente da linha de pesquisa, os pesquisadores podem fazer a escolha de utilizar ou não animais, de torná-los sujeitos ou objetos de seus estudos. Infelizmente, a maioria parece cega aos reais interesses dos animais.

“Existe um apego à tradição por parte dos professores que ainda propagam essas metodologias e advogam fortemente em favor delas. Existem amarras técnicas e ideológicas fortíssimas. É muito difícil para pesquisadores admitirem, depois de anos das mesmas práticas, estarem errados e que é preciso mudar.”

É possível estudar psicologia experimental sem confinar animais em laboratórios?

Com certeza! Vários estudos importantíssimos foram e continuam sendo realizados dentro da psicologia experimental, com animais livres em testes que não os submetem a qualquer prejuízo. Usarei como exemplo um setor do Departamento de psicologia experimental da Universidade de São Paulo, onde realizei meu Mestrado. Renomados pesquisadores realizam pesquisas na área da Etologia por meio de metodologias criativas e robustas, que produzem dados consistentes e relevantes e não aprisionam, torturam ou matam animais. Para exemplificar ainda melhor, escolho falar sobre o grupo de Comportamento e Cognição de Cães – do qual faço parte – criado pelo querido Prof. Dr. César Ades, que infelizmente faleceu em 2012 e foi uma das pessoas mais importantes para Etologia no Brasil, sendo um ator fundamental para o estabelecimento desta linha de pesquisa no país. A cachorrinha Sofia, uma vira-lata de temperamento forte, foi sujeito de alguns estudos sobre a comunicação entre cães domésticos e seres humanos – infelizmente, ela faleceu este ano. Sofia foi capaz de aprender a utilizar um teclado com alguns lexigramas (i.e. símbolos arbitrários) para expressar desejos como passear, comer, receber carinho de um ser humano. Além disso, ela também mostrou ser capaz de utilizar o teclado levando em consideração se o humano poderia ver ou não o teclado, o que demonstrou que ela realmente se comunicava através do equipamento. Mais ainda, Sofia também mostrou ser capaz de compreender comandos duplos (i.e. duas palavras), que envolviam tanto um objeto específico quanto uma ação específica, que significa que ela possuía habilidades complexas para interagir com seu ambiente físico e social. Todos os experimentos realizados com Sofia levavam em consideração primeiro as vontades dela: quando ela não se sentia motivada para participar dos testes, nada era forçado para ela! Além disso, todos os estudos se fundamentaram em metodologias éticas, que acabavam sendo uma grande brincadeira para a nossa querida cachorrinha.

Os estudos feitos com Sofia (foto) demonstram que é perfeitamente possível compreender o comportamento animal sem confinamento laboratorial.
Os estudos feitos com Sofia (foto) demonstram que é possível compreender o comportamento animal sem confinamento laboratorial

Inclusive, um grande criticismo sobre os testes invasivos realizados em animais que estão sob altíssimo estresse é a geração de dados espúrios, errôneos. Indivíduos não se comportam de maneira natural quando estão em situações negativas, que envolvem confinamento, privação de sono ou de água e dor.

Na maior parte dos cursos de psicologia há a utilização de animais na disciplina de behaviorismo. Apesar de haver um modelo computadorizado, tais testes continuam sendo feitos. Qual é a sua posição a respeito desta realidade?

Sou a favor da total substituição da utilização de animais por métodos que não firam fisicamente ou psicologicamente qualquer animal, especialmente para aulas práticas, uma vez que já existe uma ampla variedade de opções éticas. Primeiro, do ponto de vista de direitos dos animais, porque envolve a usurpação da liberdade de seres inocentes e práticas muitas vezes cruéis. Segundo, do ponto de vista da qualidade do ensino, porque já foi comprovado que a aprendizagem dos estudantes é igual ou até superior com metodologias que não envolvam animais reais. Terceiro, do ponto de vista dos profissionais que estão em formação, uma crítica importante a esses métodos antigos é a dessensibilização: uma perda de sensibilidade que vai se cristalizando nos profissionais aspirantes, que resulta em um distanciamento até mesmo de seus pacientes.

Existe um apego à tradição por parte dos professores que ainda propagam essas metodologias e advogam fortemente em favor delas. Existem amarras técnicas e ideológicas fortíssimas. Primeiramente, é muito difícil para pesquisadores admitirem, depois de anos das mesmas práticas, estarem errados e que é preciso mudar. Além disso, é também muito difícil quererem investir energia (os custos a longo prazo são até mais baixos para métodos substitutivos) para que tais mudanças aconteçam. E, não menos importante, a influência da indústria dos materiais de laboratório/biotérios – gaiolas, rações, os próprios animais, que são vendidos, usados e descartados (sim, como um objeto qualquer), entre outros – lucra pesadamente com a manutenção da experimentação animal também no meio universitário.

“Não é apenas quando um animal está sendo cortado vivo, que está morrendo de sede ou quando tem eletrodos colocados na sua cabeça que ele sofre.”

Em alguns procedimentos feitos em aulas de Behaviorismo, os ratos ficam cerca de 50 horas sem água. Existe sofrimento durante tal processo?

Ratos, coelhos, cachorros, gatos, aves, entre tantos outros, são todos seres sencientes, o que quer dizer que sentem dor e possuem emoções. Para esta pergunta, uma resposta muito curta e objetiva: todo procedimento de privação de algo fundamental para o animal (e.g. alimento, água, sono, movimentação, contato social) causa grande sofrimento.

Muitos pesquisadores afirmam que os animais de laboratório possuem “regalias” de todos os tipos. Qual a sua resposta para esse tipo de afirmação?

Se limpeza e iluminação podem ser consideradas neste sentido, então alguns laboratórios e biotérios podem utilizar o argumento de estar fornecendo algumas “regalias” para seus animais escravizados. Bem, primeiro de tudo, a higiene deveria, sim, ser prioridade para esses ambientes no sentido de garantir que as “cobaias” das pesquisas não contraiam doenças do ambiente, mas, na verdade, isso não chega nem a ser uma realidade para todos os laboratórios e biotérios. No entanto, mesmo que esses indivíduos estejam vivendo em um ambiente limpo e que estejam recebendo ração e água, três aspectos fundamentais têm que ser abordados:

(i) muitos desses animais têm como fim um experimento cruel ou a morte, então ganhar comida e uma gaiola não parece ser um grande prêmio; (ii) o confinamento pode ser um dos maiores sofrimentos ao qual um animal pode ser submetido – muitos ratos, por exemplo, vivem em gaiolas minúsculas, uns em cima dos outros, sem ter sua estrutura social respeitada e sem a possibilidade de sentir o que é o mundo real nem por um instante sequer. Nessas circunstâncias, garantir que esses animais não morram de fome e não morram logo de alguma doença, apenas prolonga a vida miserável que eles levam; (iii) mesmo em uma situação em que, de alguma maneira, o bem-estar desses animais estivesse sendo respeitado, como bem coloca o grande etólogo e ativista Marc Bekoff (Professor Emérito da Universidade do Colorado): um bom bem-estar não é suficiente! O que isto quer dizer? Não é apenas quando um animal está sendo cortado vivo, que está morrendo de sede ou quando tem eletrodos colocados na sua cabeça que ele sofre. Ele sofre quando ele não tem espaço para se mover, quando ele não tem possibilidade de exibir seus comportamentos naturais, quando ele é privado de interagir com o mundo e com seu grupo social, quando ele tem sua liberdade tolhida.

“Eu acredito no potencial dos seres humanos e sei que somos capazes de desenvolver metodologias cada vez melhores sem que estejam sujas do sofrimento e do sangue de tantos seres inocentes e que sejam ainda mais valiosas para a ciência.”

Os testes em animais são usados como “modelos” para doenças mentais humanas. Você considera que as outras espécies são bons “modelos” para transtornos mentais?

Para esta discussão, gostaria de voltar ao que coloquei anteriormente: a experimentação animal se baseia em um paradoxo lógico, em que os animais não-humanos são ao mesmo tempo muito diferentes e muito parecidos com as pessoas, dentro de uma perspectiva utilitarista e objetificadora, que utiliza essas diferenças para legitimar maus tratos e crueldades. Se pensarmos que existem variações biológicas entre homens e mulheres, entre faixas etárias, populações, que as reações comportamentais dependem da interação dos indivíduos com seu ambiente interno e externo, dos hábitos de vida e que mesmo se, por exemplo, duas mulheres de 25 anos que moram na mesma casa utilizarem a mesma substância pode haver diferentes reações, como pensar que boas extrapolações podem ser feitas de dados de ratos para seres humanos?

É claro que, cada vez mais, a ciência vem mostrando que animais não–humanos exibem comportamentos elaborados e possuem mecanismos neurais e habilidades cognitivas complexos. Nesse sentido, acho, sim, que o estudo dos outros animais pode acrescentar muito no entendimento sobre, por exemplo, transtornos mentais humanos. Mas, é exatamente por compreender cada vez melhor a complexidade desses indivíduos, que eles têm que ser tratados como sujeitos e não como objetos de pesquisa. Acredito e acho possível uma ciência do comportamento ética, em que os direitos, desejos e necessidades dos animais são respeitados e que dados consistentes e robustos são obtidos.

Devemos pensar nos animais não-humanos entendendo que algumas diferenças têm que ser respeitadas e que outros métodos mais eficientes têm que ser desenvolvidos e que as semelhanças devem, sim, ser aproveitadas de uma forma positiva para todos os envolvidos, gerando conhecimento para a melhoria de vida e proteção e conservação de todas as espécies; conhecimento este que deve ser utilizado em prol de todos os animais e não em “benefício” de uns às custas de outros.

“Somos todos animais e temos todos o mesmo desejo de não sentir dor, de viver e de ser livre. Temos desejo e temos o direito de sermos livres.”

Podemos interromper o uso de animais na ciência?

Podemos e devemos pensar numa ciência diferente, e investir na criação (e na obrigatoriedade) de métodos substitutivos. É possível sim, acabar com os testes. Defender o fim da experimentação animal não é ser anticientífico, muito menos significa lutar contra o progresso da ciência. Muito pelo contrário, muitas descobertas deixaram de acontecer ou foram muito atrasadas pelo alto grau de cristalização das práticas em torno do uso de animais… sem falar nos grandes desastres e enganos científicos que foram produto de uma visão de ciência estreita, em que se desvaloriza a riqueza das outras espécies animais e se dá valor à dor e a morte. Além disso, eu acredito no potencial dos seres humanos e sei que somos capazes de desenvolver metodologias cada vez melhores sem que estejam sujas do sofrimento e do sangue de tantos seres inocentes e que sejam ainda mais valiosas para a ciência, porque trarão dados menos confusos, menos passíveis de erros e mais esclarecedores. A ciência vai ganhar muito se começar a incluir a ÉTICA em suas práticas.

Por que é errado usar animais em nosso benefício?

Animais (todos, humanos ou não-humanos) não são objetos para serem usados. Não temos direito de arrancá-los de seu ambiente, de criá-los como coisas, de confiná-los, de explorá-los, de torturá-los, de matá-los, de descartá-los. Somos todos animais e temos todos o mesmo desejo de não sentir dor, de viver e de ser livre. Temos desejo e temos o direito de sermos livres.

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