Derrubando as mentiras do Instituto Royal

No dia 18 de outubro de 2013, ativistas resgataram 178 beagles usados em diversos experimentos realizados no Instituto Royal, em São Roque (SP). Na época, a gerente geral do laboratório, Silvia Ortiz, elaborou um vídeo explicando tais procedimentos e a suposta importância dos mesmos para a sociedade. Esse exemplo pode nos possibilitar uma compreensão das falácias divulgadas pelos apoiadores da experimentação animal.

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Ortiz começa o vídeo destacando a “destruição” e “invasão” ocasionadas por um “pequeno grupo” de pessoas, logo em seguida afirma que testes de medicamentos eram feitos cotidianamente no Instituto Royal :

“[…] fazíamos testes de segurança para medicamentos e fitoterápicos, para cura e tratamento de diversas doenças como câncer, diabetes, hipertensão e epilepsia, entre outras, bem como para o desenvolvimento de medicamentos antibióticos e analgésicos.” [Instituto Royal: Dra. Silvia Ortiz esclarece sobre as atividades da entidade, dia 23 de outubro de 2013, YouTube] [1]

Aqui já encontramos a primeira mentira, ao qual ainda não podemos dizer ser feita de maneira deliberada, uma vez que boa parte da comunidade científica ainda acredita que a experimentação animal é necessária para a pesquisa biomédica. Porém, uma breve analisada dos registros científicos demonstram a falácia da suposta cura produzida pelos testes em animais.

Por ano, o governo dos Estados Unidos investe cerca de 12 bilhões de dólares nesse tipo de experimento. Não encontrei qualquer tipo de referência ou estudo conduzido no Instituto Royal sobre as doenças citadas por Ortiz. Mesmo assim, um dos secretários da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência e coordenador do Concea (Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal), médico Marcelo Marcos Morales, declarou para a mídia que os resultados eram “promissores” nas pesquisas anticâncer:

“Um trabalho que demorou anos para ser produzido, que tinha resultados promissores para o desenvolvimento do país, foi jogado no lixo.” [Folha de S. Paulo, 22 de outubro de 2013] [2]

Morales teria vergonha ao fazer esse tipo de declaração caso se empenhasse em analisar as evidências científicas da biomedicina. Pesquisas contra o câncer em animais continuam sendo feitas rotineiramente, como se estivéssemos no caminho certo. Apesar de décadas de pesquisa, cientistas já conseguiram curar diversas vezes câncer em ratos ou camundongos, mas tais tentativas têm falhado miseravelmente em nossa espécie. Em paralelo, as mortalidades pela doença estão aumentando, bem como a sua incidência.

Pesquisas com animais representam um fracasso na promoção da saúde humana.
Pesquisas com animais representam um fracasso na promoção da saúde humana.

Entre 1970 e 1985, os pesquisadores utilizaram em média 400 milhões de animais para verificar possível eficácia contra o câncer de mais de meio milhão de compostos. Contudo, apenas 80 compostos foram para a fase clínica, 24 provaram ser eficazes, e, destes, somente 12 passaram a ter um importante papel na quimioterapia. Mas estes 12 compostos eram variações químicas de agentes quimioterápicos já conhecidos anteriormente. Ou seja, nada de novo surgiu, apenas reconheceu-se efeitos farmacológicos que já eram previstos por suas estruturas químicas. [3]

Além disso, o próprio ex-diretor do Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos já admitiu a falha dessas pesquisas:

“A história da cura do câncer na ciência tem sido uma história de cura dos ratos. Conseguimos curar por décadas câncer em ratos – e isso simplesmente não funciona em humanos.” [4]

Ortiz desconsidera que os medicamentos testados em animais não podem prever os efeitos colaterais que ocorrerão em humanos. Há uma lista significativa de remédios que entraram no mercado matando centenas de pessoas, ou deixando gravíssimos efeitos inesperados que não foram verificados em animais. Para citar um exemplo, a droga fenilpropanolamina (PPA), proibida de circulação, passou por todos os testes em animais, mas ocasionou de 200 a 500 derrames em mulheres.

Todo e qualquer medicamento somente vai para o mercado após passar pela fase clínica, de testagem humana. De acordo com o próprio FDA (Foods and Drugs Administration, a vigilância sanitária dos EUA), 92% das drogas testadas com sucesso em animais falham em humanos. [5] Já segundo a ANVISA, 50% dos medicamentos são retirados do mercado depois de 5 anos, mesmo com o procedimento da experimentação animal. [6]

Intoxicar um beagle até a morte pode ser classificável como "boa ciência"?
Intoxicar um beagle até a morte pode ser classificável como boa ciência?

Tudo isso já nos deu um panorama geral de como a experimentação animal é falha e um fracasso no aspecto técnico. Podemos concluir, com clareza, que é uma falácia afirmar que a pesquisa animal garante a produção e a segurança farmacológica – na realidade, ela é um perigo para o ser humano, ao contrário do que disse Ortiz:

“O objetivo é testar a segurança de novos medicamentos de forma que possam ser usados pelas pessoas como eu e você.” [Instituto Royal: Dra. Silvia Ortiz esclarece sobre as atividades da entidade, dia 23 de outubro de 2013, YouTube] [1]

Se um medicamento possui diferenças de efeito e metabolização entre seres da mesma espécie, imagine entre outras. Portanto, a extrapolação de dados de uma espécie para a outra é um erro grotesco que os cientistas não podem mais continuar cometendo, pois, de fato, está produzindo doença e morte:

“Não há dúvida de que a melhor espécie para teste em ciência é a espécie humana. Não é possível extrapolar dados obtidos com animais para os seres humanos, devido à variação anatômica, fisiológica e bioquímica.” [7]

Seguindo o vídeo, Silvia Ortiz afirma que o uso dos beagles ocorre por conta da similaridade biológica e genética que possuímos com eles. Trata-se, na melhor das hipóteses, de uma meia-verdade. Isso porque uma possível semelhança genética não garante eficácia alguma da experimentação animal. Temos até 99% de semelhança genética com chimpanzés. O fracasso é fácil de ser constatado: mais de 85 vacinas contra HIV funcionaram em primatas não-humanos. Todas elas falharam em humanos. [8] Curiosamente, temos 50% de semelhança genética com as bananas, mesmo assim, não se veem defensores dos “testes em bananas”. [9]

É fácil rotular os ativistas como "criminosos" quando a lei ampara a exploração animal e o especismo.
É fácil rotular os ativistas como “criminosos” quando a lei ampara a exploração animal e o especismo.

Até agora, verificamos que a fala de Silvia Ortiz pode até ser justificável por ignorância científica. Todavia, o que se segue no vídeo é uma afirmação desonesta e mentirosa:

“Os invasores nos acusavam de maltratar os cães. E justificaram isso com a depredação do nosso laboratório e a retirada dos animais. Além disso, disseram que testávamos cosméticos e produtos de limpeza nos animais. Tudo isso é mentira.” [Instituto Royal: Dra. Silvia Ortiz esclarece sobre as atividades da entidade, dia 23 de outubro de 2013, YouTube] [1]

Dá até para entender ela afirmar que os testes em animais são “necessários” (o que não é verdade), uma vez que esse tipo de pensamento ainda é predominante na comunidade científica, mas garantir que o seu laboratório não fazia testes de cosméticos foi uma tentativa de moldar a opinião pública contra os ativistas, pois já é consenso da inutilidade e futilidade desses testes.

Certificado do Inmetro confirma testes de cosméticos e produtos de limpeza no Instituto Royal.
Certificado do Inmetro confirma testes de cosméticos e produtos de limpeza no Instituto Royal.
Na época, ao fazer uma simples busca no Google, já havia a indicação desses testes pelo site oficial do laboratório.
Na época, ao fazer uma simples busca no Google, já havia a indicação desses testes pelo site oficial do laboratório.

A prova definitiva vem de um documento do próprio Inmetro (BPL – Boas Práticas de Laboratório). Consta que o Instituto Royal realizava testes de cosméticos e de produtos de limpeza em cães, coelhos e roedores. Clique aqui para conferir o documento completo.

Tais testes, denominados de toxicidade oral aguda, envolvem a administração de alguma substância para os animais que pode levá-los até a morte, ou seja, tortura até a morte.

Ortiz reitera que o Instituo Royal segue todas as “normas” determinadas judicialmente, que garantiriam o bom tratamento dos animais. No entanto, uma vistoria realizada pelo biólogo Sérgio Greif constatou que os cães dormiam nas próprias fezes (foto abaixo). [10]

Cães dormiam nas próprias fezes no Instituto Royal.
Cães dormiam nas próprias fezes no Instituto Royal.

Continuando com alegações inverídicas, Ortiz assegura que os beagles recebiam “carinho” dos tratadores e que participavam de “atividades recreativas”, tendo uma “alimentação saudável e regular”, o que também não é verdade. De acordo com uma advogada que entrevistamos, praticamente todos os cães apresentavam anemia profunda. [11] Além disso, o que precisa ser destacado é que tais animais possuem a própria liberdade sequestrada, ou seja, eles não são vistos como sujeitos de direito. São coisificados e tratados como meros equipamentos de laboratório, quando são seres sencientes e possuem interesses próprios.

Portanto, usar animais em nosso benefício é imoral e antiético, sob qualquer aspecto. Os animais não estão aqui para nos servir – seja na ciência, alimentação ou entretenimento.

E para finalizar com chave de ouro, Silvia Ortiz declara:

“Nós persistiremos pela que temos na relevância das pesquisas que fazemos, mas precisamos que a sociedade compreenda essa importância e que nos ajude a continuar trabalhando pelo bem estar de todos.” [Instituto Royal: Dra. Silvia Ortiz esclarece sobre as atividades da entidade, dia 23 de outubro de 2013, YouTube] [1]

Realmente, Silvia Ortiz depende da fé para continuar acreditando em experimentos com animais, pois cientificamente falando, já sabemos que seu discurso não é nada além de um apelo ao terror e ao medo. Talvez ela não saiba, mas a ciência não depende da pesquisa animal para continuar existindo, mas por conta de crendices promovidas por pessoas como Ortiz, a comunidade científica não dedica o tempo preciso ao investimento e produção de metodologias substitutivas, que não necessitem do massacre de mais de 100 milhões de animais por ano em nome de uma falsa ciência.

Porém, tenho minhas dúvidas se ela, juntamente com todos os apoiadores da experimentação animal, teriam a disposição de deixar a fé de lado e encarar as evidências científicas, bem como a verdadeira ética – essa independe das justificativas mirabolantes que repetem algo que já estamos cansados de vivenciar: a crença de que a espécie humana é superior aos animais e ao restante da natureza. E todos nós já sabemos as consequências desse pensamento medieval.

Só uma última coisa: Ortiz afirma que os ativistas possuem uma “insensibilidade atroz”. Bem, eu não sei como ela conseguiu chegar até essa conclusão, mas gostaria de saber qual justificativa ela daria ao seu próprio filho depois de afirmar que o submeteria a experimentos cardíacos…

“As pessoas que esperneiam dizendo que nós temos que fazer experimentos com animais são as mesmas pessoas cujas hipotecas estão sendo pagas com o dinheiro da pesquisa animal.”
– Dr. Ray Greek

Referências

[1] Instituto Royal: Dra. Silvia Ortiz esclarece sobre as atividades da entidade.

[2] Folha de São Paulo (2013). Retirada de cães de instituto afeta teste anticâncer, diz cientista.

[3] PPO, Updates of Cancer, 10 de outubro, 1989.

[4]  Los Angeles Times (1998). Cancer Drugs Face Long Road From Mice to Men.

[5] FDA (Março, 2004). Challenge and Opportunity on the Critical Path to New Medical Products.

[6] ANVISA (2009). Anvisa 10 anos: de olho nos medicamentos que estão no mercado.

[7] MacLennan & Amos. (1990). Clinical Science Research Ltd., UK, Cosmetics and Toiletries Manufacturers and Suppliers, XVII, 24.

[8] Bailey, J. (2008). An assessment of the role of chimpanzees in AIDS vaccine research. ATLA-Alternatives to Laboratory Animals, 36(4), 381.

[9] Hands-on DNA: A Question of Taste – Amazing facts and quiz questions (n.d.) [PDF]

[10] Parecer solicitado pelo MP aponta “condição insalubre” em um dos canis do Instituto Royal.

[11] Ao contrário do que diziam os cientistas, beagles resgatados do Instituto Royal agora estão saudáveis e alegres.

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