A libertação do macaco Britches: uma visita aos porões da pesquisa animal

A experimentação animal possui uma história de tortura, sadismo e sofrimento. Por décadas os cientistas repetem um modelo cruel, que tem falhado categoricamente em proteger seres humanos. Muitos acadêmicos, vistos como “cientistas”, realizaram testes em animais para, muitas vezes, simplesmente comprovarem uma teoria da qual estavam defendendo ou criando. E, de fato, eles estavam (e ainda estão) dispostos a fazer de tudo, inclusive sucumbir à imoralidade, para manterem um status acadêmico.

“Cientistas adoram vender a ideia de que respeitam as leis. Mas e a moralidade onde fica? Que princípio filosófico é esse usado para justificar a exploração de animais em nome da ciência?”
– Dr. Frank Alarcón.

Se você já conferiu as pesquisas do psicólogo Harry Harlow sobre privação materna, os testes de Edward Taub, também da área da psicologia, além dos experimentos feitos em Israel com primatas não-humanos, deve ter chegado à inevitável conclusão de que as pesquisas com animais representam os porões da ciência. Isso significa que tais estudos não representam o ápice da evolução científica, pelo contrário, beiram o pseudocientificismo – uma ciência falsa, que quer passar-se por algo que não o é.

Nesse artigo, você irá conhecer mais um caso deplorável de maus tratos em nome da ciência. Também realizado na área da psicologia, na Universidade da Califórnia Riverside (UCR), por David H. Warren, atualmente professor emérito do Departamento de Psicologia da UCR.

Warren se formou na Universidade de Yale em 1965 com bacharelado em Psicologia, após isso, obteve seu doutorado em Desenvolvimento Infantil na Universidade de Minnesota.

O interesse pelo impacto da deficiência visual em crianças começou cedo. Mas o psicólogo resolveu fazer isso em seres de outra espécie; melhor dizendo, em macacos. A ideia era comprovar o conceito de que um desenvolvimento possivelmente atrasado em crianças cegas não era resultado da própria deficiência visual, mas sim das variáveis ambientais¹. Para isso, David H. Warren costurou as pálpebras de Britches, além de privar sensorialmente outros 24 filhotes macacos, ao serem separados de suas mães desde o nascimento. No final desses experimentos, os macacos eram mortos e seus cérebros eram analisados.

Britches tinha apenas 5 semanas de idade quando foi resgatado.
Britches tinha apenas 5 semanas de idade quando foi resgatado.

Britches tinha um dispositivo eletrônico que prometia fornecer o desenvolvimento de uma noção do espaço externo, apesar da cegueira induzida.

Mas o desfecho da história não foi tão trágico: um estudante alertou um grupo de ativistas sobre as pesquisas. O grupo é conhecido como ALF (Animal Liberation Front), que possui o objetivo de fazer ações diretas de resgates de animais, tanto em laboratórios, matadouros e qualquer outra instituição de exploração animal.

Em 20 de abril de 1985, ativistas fizeram o resgate de centenas de animais, que estavam confinados na Universidade da Califórnia Riverside, incluindo macacos, camundongos e ratos. Um dos macacos, especificamente, estava sozinho em uma gaiola, com os olhos costurados e um dispositivo ligado a sua cabeça, que emitia um grito estridente regularmente.

Ele foi encontrado agarrado em um dispositivo que possuía um mamilo falso, que deveria servir como uma “mãe de aluguel”, visto que já havia sido separado de sua mãe verdadeira.

Assim estava Britches quando foi encontrado pela ALF.
Assim estava Britches quando foi encontrado pela ALF.

As filmagens do resgate foram entregues à ONG norte-americana PETA (People for the Ethical Treatment of Animals), que realizou uma denúncia formal ao NIH (Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos), alegando maus tratos aos animais. A investigação durou 8 meses, mas concluiu que o programa das pesquisas de Warren era “adequado”, não aplicando sequer qualquer tipo de multa ou ação corretiva. Apesar disso, a universidade deixou de permitir que esses experimentos fossem realizados novamente.

O veterinário Ned Buyukmihci examinou Britches depois do resgate, concluindo que as experiências eram "dolorosas" e "injustificáveis".
O veterinário Ned Buyukmihci examinou Britches depois do resgate, concluindo que as experiências eram “dolorosas” e “injustificáveis”.

Britches foi examinado por dois especialistas. O veterinário oftalmologista Ned Buyukmihci da Universidade da Califórnia Davis (UCD) revelou que as suturas eram grandes e que os curativos estavam sujos, concluindo que não havia qualquer tipo de justificativa para o que ele chamou de experiência “dolorosa” e “desleixada”. Já Bettina Flavioli, pediatra aposentada, emitiu um relatório afirmando que Britches tinha fotofobia (aversão a qualquer tipo de luz), pele seca, falta de odor corporal, inflamação peniana, e  fraqueza muscular generalizada².

Felizmente, Britches teve um final feliz. Quando completou cinco meses de idade ele foi transferido para um santuário do Texas, Primarily Primates, onde foi adotado por uma macaca fêmea idosa, vivendo até 20 anos, sem nunca mais ser submetido a qualquer tipo de experiência científica.

Finalmente, Britches sem as suturas.
Finalmente, Britches sem as suturas.

“Quem invade um laboratório de pesquisa para resgatar um animal torturado é tão criminoso quanto um abolicionista que um dia invadiu uma senzala para libertar escravos.”
– Pedro Abreu (ativista dos Direitos Animais).

Como já era esperado, um porta-voz da UCR declarou que as alegações de maus tratos eram “completamente falsas” e que não existiam danos a longo prazo para os animais usados nessas pesquisas³ – o que, mediante as evidências, ficou comprovado serem afirmações completamente desonestas.

Na época, o chefe do Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos declarou que o resgate de animais de laboratório tratava-se de “terrorismo”, “roubo” e “crime” [4]. Nada poderia ser mais esquizofrênico moralmente do que esse tipo de declaração. Se analisarmos as crenças implícitas em tal discurso vemos que os cientistas acreditam que os animais pertencem à ciência. Eles seriam produtos e mera “propriedade privada” – por isso seria um “roubo” retirá-los de um laboratório. Mas da onde surgiu a ideia de que os animais são dos cientistas? Quem roubou o direito à liberdade de um ser senciente e complexo? Macacos e qualquer outro tipo de espécie não pertencem aos seres humanos, ou seja, eles possuem seus próprios interesses e seus próprios fins.

Britches foi resgatado, mas infelizmente outros milhares existem por aí, espalhados em laboratórios do mundo inteiro, justamente porque a lei permite que esses experimentos continuem acontecendo. Além de lutarmos para essa realidade ser alterada, deixar de acreditar no discurso especista de indivíduos que se classificam como “cientistas”, já é um grande passo.

Os cientistas querem fazer você acreditar que os animais são coisas e produtos. Na verdade, quem está vendível são os próprios cientistas.
Os cientistas querem fazer você acreditar que os animais são coisas e produtos. Na verdade, eles próprios pensam dessa forma.

Os porões da experimentação animal continuam, porque o especismo prevalece. Se um dia afirmaram que os negros eram escravos, coisas e produtos, os animais passam pela mesma situação. Como de praxe, há muito dinheiro em jogo. Precisamos ver quem está lucrando com a captura e a criação de animais para laboratório. Só então entenderemos que as acusações feitas aos ativistas são meras projeções de indivíduos que venderam a própria ética.

“As pessoas que esperneiam dizendo que nós temos que fazer experimentos com animais são as mesmas pessoas cujas hipotecas estão sendo pagas com o dinheiro da experimentação animal.”
– Dr. Ray Greek, Médico.

Referências

¹WARREN, David H. Blindness and children: An individual differences approach. Cambridge University Press, 1994.

²The Story of Britches – PETA. Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=wgkeUZFCZQM > . Acesso em 20 de junho de 2014.

³”Group Says It ‘Rescued’ 260 Animals From Lab,” Associated Press, 21 de Abril, 1985. [PDF]

[4] “Crackdown urged in animal thefts”, Chicago Tribune, 26 de Abril, 1985, p. 8.

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4 respostas para “A libertação do macaco Britches: uma visita aos porões da pesquisa animal”

  1. Nossa que história triste chorei ,só Deus que vai dar um basta nisso acredito que ele vai acabar em breve ,homens como estes logo terão a mão de Deus em cima deles.justica só divina ,dos homens nunca existira
    mesmo.

  2. Anônimo, mudar esta realidade está em nossas mãos. Precisamos nos recusar a aceitar uma falsa ciência que torture animais.

    Abraços.

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