Estudos de privação materna: tortura em nome da (pseudo)ciência

Psicólogo Harry Harlow torturou macaquinhos na década de 1950.

Privação Materna
Quem se importa com macacos? (Foto: Martin Rogers)

Em 1958, na Universidade de Wisconsin (EUA), o psicólogo Harry Harlow realizou uma série de experimentos com macacos que envolviam a separação entre mãe e filho desde o nascimento. Harlow usou a justificativa de que as relações afetivas deveriam ser melhor compreendidas – para isso, usou o “modelo animal” para a depressão clínica.

Nos experimentos de Harlow, os macacos recém-nascidos eram expostos a uma série de fatores estressantes torturantes, para que se observasse o comportamento das cobaias diante de ameaças que envolviam, por exemplo, o confronto com uma “mãe monstro”, nas palavras do próprio pesquisador. Os “monstros” emitiam choques violentos para assustar os macaquinhos, que se agarravam a um objeto tátil em busca de alguma segurança.

Privação Materna
Nas palavras de Harlow, a imagem acima é de um “poço de desespero” (Imagem: Figura 4/Total Social Isolation in Monkeys)

Separados e vivendo em “poços de desespero” (pit of despair), um adjetivo criado por Harlow, os filhotes viviam em isolamento total ou parcial, durante cerca de 24 meses, em câmaras de aço – frias, estéreis e sem qualquer tipo de contato com o mundo externo. Harlow afirmou que este tipo de experiência “aterrorizou” os macacos, deixando-os “completamente destruídos”.

A conclusão (nada inovadora) dos seus estudos era de que amor, conforto e toque são aspectos importantes para o crescimento e desenvolvimento saudáveis:

“Nossos dados indicam que os efeitos debilitantes de 3 meses de isolamento social são dramáticos, porém reversíveis. Se houver danos a longo prazo, social ou intelectual, isso escapa às nossas medições.” (Harlow et al., 1965)

Embora vários autores da psicologia já tivessem apontado a importância dos cuidados familiares, especialmente psicanalistas (como René Spitz, que fez observação da privação emocional diretamente em bebês humanos, em 1952), Harlow, já falecido, fez experimentos com animais também porque a psicologia necessitava de um viés mais “científico” e “naturalista”, para ser encarada como ciência empírica.

As pesquisas do psicólogo em questão custaram cerca de 14 milhões de dólares aos cofres públicos norte-americanos, envolvendo cerca de 100 animais.

Centenas de pesquisas sobre o tema continuaram e continuam sendo realizadas. Sadismo e psicopatia são palavras insuficientes para descrever os estudos de privação materna. Afinal, são macacos – quem se importaria com eles?

Apesar de tudo, Harry Harlow é visto como um “grande psicólogo” ou “grande gênio” da ciência. Um gênio que não descobriu, definitivamente, nada de novo na psicologia, apenas repetiu um protocolo indefensável pelos parâmetros éticos e científicos. Ou como ele mesmo disse:

“A única coisa que me interessa é se um macaco será uma propriedade que eu possa publicar. Eu não tenho amor algum por eles. Eu nunca tenho. Eu realmente não gosto de animais. Eu desprezo gatos. Eu odeio cães. Como você poderia amar macacos?”

[Entrevista para Pittsburgh Press, 1974, citado em Deborah Blum, 1994, p. 92].

Abaixo um vídeo dos experimentos de Harlow.

Referências

BLUM, Deborah. The monkey wars. Oxford University Press, 1994, p. 92.

HARLOW, Harry F.; DODSWORTH, Robert O.; HARLOW, Margaret K. Total social isolation in monkeys. Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America, v. 54, n. 1, p. 90, 1965. [Link]

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4 respostas para “Estudos de privação materna: tortura em nome da (pseudo)ciência”

  1. Absurdo que a psicologia experimental continue seguir protocolos semelhantes, ou quaisquer protocolos que causem dor sem um motivo tangível e de extrema importância… Essa indústria da perversão é sustentada ideologicamente pela crença de que 1º estão fazendo ciência (o que frequentemente é questionável). 2º que a ciência é igual verdade (que por sua vez é outra crença questionável ao menos desde o século XIX), 3º: que a razão e o pensamento são superiores às emoções e vivências. Uma pessoa saudável não precisa provar que o amor é importante, ela apenas ama. Não deve ter sido por acaso que o autor dessas torturas (pesquisas) tenha morrido com forte depressão e adicção.

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