Estudos de privação materna: tortura em nome da ciência

A ideia de que os cientistas que realizam pesquisas com animais são, de alguma forma, sádicos ou psicopatas, não vem de uma teoria de conspiração ou crença absurda – de fato, uma série de pesquisas feitas em nome da “ciência”, demonstram, sem sombra de dúvida, que sadismo é um termo que se encaixa perfeitamente em experimentação animal. Mas você não é obrigado a acreditar na minha palavra; confira os estudos de privação materna de Harry Harlow.

Quem se importa com macacos?
Quem se importa com macacos?

Em 1958, na Universidade de Wisconsin, o psicólogo americano Harry Harlow realizou uma série de experimentos com macacos, que envolviam a separação entre mãe e filho desde o nascimento. Harlow usou a justificativa de que as relações afetivas deveriam ser melhor compreendidas, e, para isso, utilizou o modelo animal, para a depressão clínica.

Nos experimentos de Harlow, os macacos recém-nascidos eram expostos à uma série de fatores estressantes, ou melhor torturantes, para que se observasse o típico comportamento diante de tais ameaças, que envolviam, por exemplo, o confronto com uma “mãe monstro”, nas palavras do próprio pesquisador. Estes “monstros” emitiam choques violentos, para assustar os filhotes de macacos, que, obviamente, se agarravam a um outro objeto tátil, para se sentirem seguros.

Nas palavras de Harlow, a imagem acima é de um
Nas palavras de Harlow, a imagem acima é de um “poço de desespero”.

Separados e vivendo em “poços de desespero” (pit of despair), um adjetivo dado pelo próprio pesquisador, os filhotes viviam em isolamento total ou parcial, durante cerca de 24 meses, em câmaras de aço – frias, estéreis e sem qualquer tipo de contato com o mundo externo. Harlow afirmou que este tipo de experiência “aterrorizou” os macacos, dizendo que eles ficavam “completamente destruídos”.

A impressionante conclusão dos seus estudos era de que amor, conforto e toque são aspectos importantes para crescimento e desenvolvimento saudáveis:

“Nossos dados indicam que os efeitos debilitantes de 3 meses de isolamento social são dramáticos, porém reversíveis. Se houver danos a longo prazo, social ou intelectual, isso escapa às nossas medições.” (Harlow et al., 1965)

Embora vários autores da psicologia já tivessem delimitado a importância dos cuidados familiares, especialmente aqueles da psicanálise (como René Spitz, que fez observação da privação emocional diretamente em bebês humanos, em 1952), Harlow, já falecido, fez experimentos com animais pois a psicologia necessitava de um viés mais “científico” e “naturalista”, para ser encarada como ciência empírica. Mas se existe alguma característica que não pode ser atribuída às pesquisas de Harlow, é a prática de ciência.

As pesquisas do psicólogo custaram cerca de 14 milhões de dólares aos cofres públicos, envolvendo 100 animais – torturados em nome da ciência. Infelizmente, centenas de pesquisas sobre o tema continuaram e continuam sendo realizadas. Sadismo e psicopatia são palavras insuficientes para descrever os estudos de privação materna. Afinal, são macacos – quem se importaria com eles? Porém, apesar de tudo, Harlow é visto como um “grande psicólogo” ou “grande gênio” da ciência.

Um gênio que não descobriu, definitivamente, nada de novo na psicologia, apenas repetiu um protocolo indefensável pelos parâmetros éticos e científicos. Ou como ele mesmo disse:

“A única coisa que me interessa é quando vou conseguir macacos para poder publicar as minhas pesquisas. Eu não tenho amor nenhum por eles. Eu nunca tenho. Eu realmente não gosto de animais. Eu desprezo gatos. Eu odeio cães. Como alguém poderia gostar de macacos?”

[Entrevista para Pittsburgh Press, 1974, citado em Deborah Blum, 1994, p. 92].

Abaixo um vídeo dos experimentos de Harlow.

Referências

BLUM, Deborah. The monkey wars. Oxford University Press, 1994, p. 92.

HARLOW, Harry F.; DODSWORTH, Robert O.; HARLOW, Margaret K. Total social isolation in monkeys. Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America, v. 54, n. 1, p. 90, 1965. [Link]

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