Para Além do Especismo Cristão

Durante quase dois milênios da história europeia, nos quais os dogmas cristãos poderiam ser questionados, muitos preconceitos criaram raízes profundas. Os humanistas são, justamente, críticos dos cristãos que não se libertaram do preconceito sobre as mulheres ou sobre o sexo não reprodutivo. É curioso, porém, que, apesar das exceções, os humanistas têm sido incapazes, em geral, de libertar-se de um dos mais centrais dogmas cristãos: o especismo.

Rezando

Na tradição judaico-cristão este preconceito é claro e sem disfarces. A história bíblica afirma que os seres humanos possuem um lugar especial no plano divino:

“Deus criou o homem à sua imagem… e Deus lhes disse: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a; e dominai sobre os peixes do mar e sobre as aves dos céus, e sobre todo o animal que se move sobre a terra.”[1]

Mas a criação não deu muito certo. A maldade prevaleceu sobre a Terra, de modo que Deus enviou um dilúvio, afogando não apenas os seres humanos ruins, mas quase todos os animais não-humanos, mesmo aqueles que eram presumivelmente inocentes. Em seguida, ele repetiu de forma mais sinistra o domínio do homem sobre o planeta:

“E o temor de vós e o pavor de vós virão sobre todo o animal da terra, e sobre toda a ave dos céus; tudo o que se move sobre a terra, e todos os peixes do mar, nas vossas mãos são entregues.”[2]

A implicação é clara: agir de forma a provocar medo e pavor em tudo que se move sobre a Terra não é errado, pelo contrário, é, de fato, um decreto dado por Deus. Este foi o pensamento dos fundamentos do cristianismo, pelo menos nos primeiros 18 séculos. Havia espíritos gentis, certamente, como Basílio, João Crisóstomo, e (talvez, embora não haja nenhum evidência contemporânea para ele) Francisco de Assis, mas a para a maioria dos cristãos, tais personalidades não tiveram um impacto significativo sobre a tradição dominante. De acordo com a tradição ocidental dominante, o mundo natural existe para o benefício humano. Deus deu aos seres humanos o domínio sobre o mundo natural, sem se importar com o que fazemos com ele. Os seres humanos seriam os únicos moralmente importantes neste mundo. A própria natureza não teria valor intrínseco, e a destruição das plantas e dos animais não é pecado, a menos que prejudique os homens.

As dificuldades que os cristãos tiveram, ao longo de muitos séculos, em levar a sério os interesses dos animais, deveriam ser mais uma razão para os humanistas rejeitarem tal perspectiva cristã. Como humanistas, devemos desprezar uma religião que homenageia um homem como Paulo, que, juntamente com os seus preconceitos contra as mulheres e homossexuais, que perguntou: “Porventura tem Deus cuidado dos bois?”[3], onde, obviamente, a resposta é negativa. A pergunta de Paulo levou os cristãos a desconsiderar passagens das escrituras hebraicas, que sugerem alguma compaixão para os animais. Mas a atitude da Igreja com os animais reforça o especismo, presente em Agostinho e Tomás de Aquino, que dominou a religião Católica Romana até o meio do século XIX, quando o Papa Pio IX se recusou a permitir uma Sociedade para a Prevenção da Crueldade Contra os Animais em Roma, alegando que, se isso acontecesse, implicaria uma falsa crença de que os humanos possuem deveres com os animais.[4]

É importante citar que, pelo menos no Ocidente, todos os defensores filosoficamente importante para os animais – como Plutarco, Montaigne, Hume, Bentham, John Stuart Mill, Henry Sal, George Bernard Shaw – têm sido céticos sobre a religião. Mesmo recentemente, os líderes do movimento animal tendem a ser contra a religião (eu me incluo). As organizações que têm feito o máximo pelos animais são independentes da religião. Há exceções, mas, em contraste com outros problemas sociais, como o racismo e a pobreza, ninguém poderia dizer que as organizações religiosas não se preocupam com o movimento animal e com o sofrimento que o ser humano causa às outras espécies.

Os humanistas não acreditam no velho mito da criação contada em Gênesis. Eles consideram que, de acordo com o Terceiro Manifesto Humanista: “Os seres humanos são parte integrante da natureza, o resultado da mudança evolutiva não guiada.”. Em outras palavras, somos animais, sem direitos dados por Deus para subjugar as outras espécies. Como Bertrand Russel escreveu certa vez:

“Desde Copérnico, tornou-se evidente que o homem não tem a importância cósmica que anteriormente requisitou para si. Qualquer homem que rejeite este fato não pode se intitular de um filósofo da ciência”.

E, no entanto, a ideia profundamente arraigada de que os seres humanos são o centro do universo moral, ainda está bastante viva e intacta em meios humanistas. No ano passado, fui convidado a assinar o Manifesto Humanista, e dei uma olhada no documento. Para minha surpresa, encontrei a seguinte frase em um dos parágrafos: “Os valores éticos são derivados de interesses e necessidades humanas como atestado pela experiência, em benefício do bem-estar humano em toda forma de situação, mas que se estendam ao ecossistema global”. Apesar desta preocupação mais ampla no final da frase e outra observação – “dever planetário de proteger a integridade da natureza, e a sua diversidade de maneira segura e sustentável” – o manifesto, obviamente, dá prioridade aos interesses dos membros da própria espécie.

Eu não assinei o manifesto, porque as minhas aspirações vão além dos interesses humanos e do ecossistema global. Não devemos nos fundamentar sobre os valores do bem-estar de todos os seres? Que os animais possuem interesses é difícil de negar, pois eles, certamente, são capazes de sentir dor e sofrimento, bem como prazer e alegria. Não há razões – exceto as religiosas – pelas quais as dores e prazeres de animais não-humanos não devam receber a mesma consideração de dores e prazeres de seres humanos. (É claro que as capacidades intelectuais podem fazer alguma diferença na forma como devemos tratar outros indivíduos. Mas isso não é uma distinção entre seres humanos e não-humanos).[5]

O Conselho pelo Humanismo Secular, através da Declaração de Princípios, é um pouco melhor do que as aspirações do passado. Ela diz que, como humanistas, “Nós queremos… evitar causar sofrimento desnecessário em outras espécies”. Isso, pelo menos, reconhece que o sofrimento dos animais é importante. Mas o que seria sofrimento “desnecessário”? Se confinar bovinos e suínos em caixas estreitas para uma produção mais barata e de maior lucro, alguns irão dizer que isso não é “desnecessário”. Dez bilhões de animais são mortos a cada ano, pela indústria de alimentos, nos EUA, e a maioria deles vivem uma vida miserável em fazendas industriais. Para além dos preconceitos humanos, é necessária uma declaração mais forte. É hora de os humanistas tomarem uma posição contra a exploração cruel dirigida a outros seres sencientes, que se baseia no viés religioso, acreditando que somos uma criação especial de Deus e que temos domínio sobre os animais.

Peter Singer é filósofo e professor australiano.

Referências

1. Gênesis 1:27-28.

2. Gênesis 9:1-2.

3. Coríntios 9:9-10.

4. E.S. Turner, All Heaven in u Rd(/e (London: Michael Joseph, 1964), p. 163.

5. Para discussões futuras, ver o livro Libertação Animal, especialmente o Capítulo 1.

Fonte: Utilitarian Philosophers

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2 respostas para “Para Além do Especismo Cristão”

  1. Acho que tudo parte da forma como você interpreta a biblia. Quando Deus orienta que o homem domine os animais, não é no sentido de usá-los para sua própria vaidade e deleite, tanto que todo o ritual de sacrifício era doloroso ao homem, já que ele escolhia um animal cujo cuidava e tinha toda uma relação de afeição, para sacrificar por ter pecado.
    O domínio que Deus estabeleceu era justamente de cuidar, tanto que Adão nomeou os animais, mostrando a intimidade e ligação forte que o homem tem com a natureza.
    Deus é criador de todo o universo, tudo Ele criou para a Sua glória e não para a glória do homem, que apesar de ser a Sua imagem, está longe de ser como Ele.
    Sou cristã, protestante e acredito que, em nome da minha igreja, estamos longe mesmo de agir conforme devíamos, aderi ao vegetarianismo, estou no processo de transição, já deixei carne, ovos e o leite, meus pais apesar de cristãos ainda comem carne, e pior, muita gente da igreja. Muitas pessoas esquecem de refletir sobre oq fazem, ligam a cena do dilúvio à atual… enfim, são muitas nuances.

  2. Sou cristã protestante vegetariana e concordo com a deb.
    Existem muitos equivocos na tradução da bíblia, juntando com a interpretação erronea de muitos.
    Acredito que Deus, o criador, se importa com a naturaza.
    Passagens bíblicas que dizem que a natureza foi reduzida a inutilidade por causa do pecado, sobre a expectativa da natureza em sua redenção torna cada vez mais claro a mim sobre o relacionamento de Deus com a sua criação.

    ps. somos semelhantes a Ele não em aspecto moral ou qualidades. Somos semelhantes a Ele porque segundo o cristianismo somos seres espirituais.

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