A profundidade emocional de uma vaca

Quem imaginaria que debaixo daquela aparência calma há um fervor de emoções? Eu não estou falando dos campeões de tênis, mas de vacas. Sim, vacas; aquelas criaturas que nós comemos, e das quais tomamos leite, mas que raramente nos importamos com isso. De acordo com uma nova pesquisa feita por cientistas da Universidade de Northampton, as vacas têm “melhores amigas” e ficam estressadas quando se separam.

Foto: David Moir / Reuters
A constatação de que as vacas têm melhores amigas não é nenhuma surpresa para aqueles que convivem com elas – assim como as suas mudanças de humor

Em seu livro The Cow (sem tradução para o português), o ex-açougueiro e poeta Bata Sterchi cunhou um adjetivo para descrever a tranquilidade das vacas – “vacapacificidade” (cowpeaceably). É a descrição de quando as vacas estão deitadas em um campo comendo grama, olhando fixamente para o espaço e totalmente em paz. Este estado de calma total faz com que a vaca pareça ser “de outro mundo”. Este é, talvez, um dos motivos pelo qual acreditamos que não há nada demais acontecendo entre as orelhas de uma vaca.

Mas nós, amantes das vacas, sempre soubemos que elas têm profundidade emocional. D. H. Lawrence escreveu brilhantemente sobre o seu relacionamento com Susan, uma vaca preta que ele tirava leite todos os dias, durante um ano, em seu rebanho em Taos, Novo México. Ele relata sobre o “repouso”, “descanso”, “passividade” e “paz” das vacas, e ele se pergunta para onde ela ia durante os seus transes. Mas Lawrence acreditava, com razão, que há sempre “um certo caos intocado na vaca”, que nunca vai embora. Depois de alguns dias, ele escreveu que ela era “rebelde, cansativa e irritante”. Isso porque Susan fazia coisas para irritá-lo, como balançar o rabo na sua cara durante a ordenha: “Então, às vezes ela balança o seu rabo, de propósito. E ela olha para mim com aquele olhar negro, quando eu grito com ela.”

Quem trabalha, ou já trabalhou, com vacas, sabe que não é surpreendente que elas são capazes de criar amizades. Dentro de qualquer rebanho, há uma hierarquia criada pelas próprias vacas, onde a posição na fila de cada vaca é mantida. Na fazenda que trabalhei, como estudante agrícola, tivemos a “Diabólica Dalila”, “Caroline Esperta” e “Mary-Rose Dor no Traseiro” – elas foram apelidadas por conta das suas travessuras irritantes ou agressivas durante a ordenha ou alimentação. As vacas dominantes ficam na frente do rebanho e intimidam as demais, e elas determinam para onde o grupo irá se mover no pasto. As vacas submissas não queriam tê-las como “melhores amigas”.

Certas vacas serão sempre as líderes do rebanho quando algum problema ocorre. E se você ameaçar uma mãe protetora do seu filhote, ela vai partir para cima de você sem receio.

Mas também existem vacas mais tranquilas, que adoram um carinho, e aquelas descritas como “curiosamente medrosas”. Essas vacas são curiosas com qualquer coisa nova, mas também são medrosas ao mesmo tempo. As mais corajosas dão uma investigada, mas elas permitem que suas línguas sejam botadas pra fora e seus pescoços se aproximem. Elas vão cheirar, cheirar… e tentar lamber a novidade, até que elas decidam, depois de cerca de 15 minutos, que estão entediadas e vão passear. Há muita coisa acontecendo entre aquelas orelhas peludas.

Hannah Velten é uma escritora que trabalhou extensivamente com bois e com vacas leiteiras

Traduzido de The Guardian, Hannah Velten, The emotional depth of a cow, July 7, 2011

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3 respostas para “A profundidade emocional de uma vaca”

  1. “Em um encontro em Palermo, na Itália, um veterinário que estivera encarregado do bem-estar de vacas a caminho do abatedouro me contou que viu uma vaca chorar. Embora ele não estivesse absolutamente certo de que a água escorrendo dos olhos dela fossem lágrimas, a vaca tinha razões para se afligir, pois tinha acabado de ver, ouvir, e farejar suas amigas sendo mortas. A experiência foi suficiente para que o veterinário pedisse transferência para outro emprego.”

    Mark Bekoff – Ph.D., professor emérito de ecologia e biologia evolucionária na Universidade do Colorado.

  2. Pedro, o que é mais desesperador é saber que esses animais complexos estão sendo mortos agora mesmo – mutilados, assassinados e mal tratados, a cada segundo. Quanto ao choro das vacas, elas possuem glândula lacrimal, que serve para controlar a umidade dos olhos. Não duvido que sejam capazes de liberar lágrimas diante alguma situação de estresse, porém precisamos de mais pesquisas para afirmar isso com propriedade.

    Esse vídeo também é agonizante:

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