Modelo animal produz informações enganosas sobre doenças humanas

Os animais são utilizados em pesquisa básica como “modelos” para o estudo da biologia humana e das doenças, além de sujeitos para o desenvolvimento de medicamentos e vacinas, com o objetivo de melhorar e promover a saúde humana.

Modelo animal tem produzido informações enganosas e inadequadas sobre a compreensão das doenças humanas.
Modelo animal tem produzido informações enganosas e inadequadas sobre a compreensão das doenças humanas

Quando falamos em “modelo”, significa que os cientistas têm o objetivo de produzir artificialmente certas condições em um animal de laboratório, que possa ter equivalência com os humanos em alguma doença ou lesão. Os animais são utilizados em todos os níveis de pesquisa: por exemplo, o sistema sensorial de um coelho pode ser estudado em pesquisa básica e também como modelo de doenças oculares e de pele, em testes de irritação ocular e toxicológicos.

O número exato de animais usado em pesquisa biomédica é desconhecido, pois as estatísticas governamentais não incluem ratos, camundongos, aves e peixes; porém algumas estimativas colocam o número total em milhões de sujeitos. Na engenharia genética, a manipulação do DNA de um animal ou de genes é utilizada com frequência na área biomédica:

“… o rato tornou-se o carro-chefe dos testes com animais, sendo particularmente útil para modificações genéticas, marcação ou adição de genes. Em 2003, o NIH (Instituto Nacional de Saúde) lançou um projeto desse tipo com investimento de 50 milhões de dólares, com o objetivo de criar uma biblioteca de células-tronco embrionárias, onde cada uma possui um gene removido.” [1]

Enquanto a maioria dos animais são propositalmente criados para pesquisa, outros, como cães e gatos, são adquiridos através de diversas fontes, tais como leilões, anúncios ou abrigos. Das várias espécies utilizadas em biomedicina, algumas são específicas para determinadas áreas. Cães, geralmente beagles jovens, são com usados com frequência em estudos cardiovasculares, cardiopulmonares, em genética, câncer e pesquisas relacionadas à idade ou ortopedia, como o desenvolvimento de próteses para quadris e joelhos. Já os gatos “têm sido um dos pilares do financiamento do NIH, sobre doenças neurológicas, cardiovasculares, respiratórias e do sistema imunológico.” [2] Os cientistas também usam gatos na pesquisa contra o câncer, em doenças genéticas, auriculares e de visão, além de doenças infecciosas. Os primatas não-humanos são usados em pesquisas sobre vacinas, doenças infecciosas, cardiovasculares, neurológicas, também sobre envelhecimento, biológica reprodutiva, terapia genética, toxicodependência, xenotransplante e em testes de toxicidade. As duas espécies de primatas mais comuns utilizadas atualmente são Rhesus e Macacos Cynomolgus, conhecidos como macacos comedores de caranguejo. Os chimpanzés também são usados em pesquisa.

Frequentemente, coelhos são usados em testes de toxicidade e para a avaliação de segurança de dispositivos médicos, vacinas e medicamentos. Em 2009, mais de 222 mil coelhos foram usados em pesquisa, mais do que qualquer outra espécie abrangida pela Lei de Bem-Estar Animal (AWA), seguidos de porquinhos da índia e hamsters, ambos utilizados em testes toxicológicos e como modelos infecciológicos, além de doenças cardiovasculares, neurológicas, e para investigação sobre abuso de drogas. Camundongos e ratos são bastante utilizados em vacinas e no desenvolvimento de novas drogas. As aves são usadas em pesquisa em órgãos e deformidades, deficiência visual, distrofia muscular, nutrição, entre outros fins.

A pesquisa básica

A pesquisa básica é exploratória, com o objetivo de adquirir mais informações ou conhecimento. “A pesquisa biológica básica, tradicionalmente, estuda a vida em seu nível mais básico – o que é a célula, do que elas são feitas… sobre o desenvolvimento de tudo.” [3] Uma grande gama de animais são usados em pesquisa básica; os camundongos são os mais utilizados. Ratos, aves, anfíbios e peixes também são usados, além de invertebrados, como moscas e vermes. “Historicamente, o uso de animais em ciência era sinônimo de pesquisa básica. Era fácil dissecar um animal sem qualquer objetivo específico em mente.” [4] De certa forma, isso ainda é verdade atualmente. Um estudo de revisão feito em 2010, sobre o uso de animais em pesquisa básica, concluiu:

“De acordo com o NIH, a investigação biomédica básica recebe mais verbas do que qualquer outro tipo de pesquisa, e usa animais em sua maior parte.” [5]

Enquanto a pesquisa básica não vem encontrando a cura para as doenças humanas, “a maioria das pesquisas básicas, hoje, são feitas com o pretexto de pesquisa aplicada, porque isso aumenta a probabilidade do projeto ser financiado por alguma instituição.” Uma revisão divulgada em 2009, a respeito dos modelos de animais, revelou que vários cientistas conseguiam investimento do NIH em pesquisa básico, mas davam a desculpa de que a pesquisa era aplicada e que possuía grande relevância clínica para os humanos. [7] Ao usarem o pretexto de aplicação clínica, automaticamente, isso permite que toda e qualquer investigação animal seja justificada, mesmo com evidências contrárias à eficácia das mesmas. Como afirmado em um artigo científico em 2011:

“O orçamento anual do NIH é de mais de 30 bilhões de dólares, mas o problema principal não é o valor investido, mas de que forma ele é usado. Agora nós estamos operando e supondo a descoberta de uma solução definitiva, e acreditamos que se continuarmos gastando mais dinheiro em pesquisa básica, simplesmente, um dia iremos encontrar a cura e tudo ficará bem. Não vai funcionar desse jeito.” [8]

O modelo animal

Para praticamente todas as doenças humanas conhecidas, os cientistas tentam induzir aspectos semelhantes nos animais, no intuito de criar um bom “modelo”. Supostamente com valor preditivo, os animais “são usados com o objetivo de descobrir e quantificar o impacto de um tratamento, cura e toxicidade”. É dessa forma que os animais são “usados no contexto farmacológico para o estudo das doenças humanas.” [9] A pesquisa na área patológica evolve os aspectos infecciosos, neurológicos, digestivos, genéticos, de tecido conjuntivo, e de doenças crônicas. Nessas áreas os animais são usados como modelos de lesões traumáticas cerebrais, lesões medulares, cegueira congênita, Parkinson, Alzheimer, AIDS, diabetes, câncer, obesidade, e assim por diante.

Na criação de tais modelos, os animais são submetidos a procedimentos invasivos, que podem incluir cirurgias, lesões traumáticas, queimaduras, alimentação forçada, exames de sangue, biópsias, comida, água e privação social, sedação, restrição prolongada, observação comportamental, efeitos ambientais, infecções virais ou bacterianas, e exposição a medicamentos tóxicos e produtos químicos. Algumas pesquisas incluem a “indução de ataques cardíacos, insuficiência cardíaca, arritmia, derrames e outros traumas cardiovasculares em macacos, cães, porcos e outros animais, induzindo sintomas de enxaqueca em gatos e primatas através da estimulação cerebral e manipulação de produtos químicos; implante de eletrodos nos intestinos de cães, a fim de provocar enjoo e vômitos; implante de eletrodos no cérebro e nos olhos de macacos ou gatos, em experimentos neurológicos e oftalmológicos; e produzindo lesões na medula espinhal ou paralisia, pelo abandono de peso diretamente nos animais.” [10]

Drogas e desenvolvimento de vacinas

Milhões de animais e dinheiro de impostos são utilizados na produção de testes de produtos biológicos, como vacinas e anticorpos. Por exemplo, um teste sobre a eficácia terapêutica de uma única proteína pode envolver 12 mil ratos e custar 2,4 milhões de dólares; uma estimativa feita em 2007 apontou que o desenvolvimento de medicamentos aumentou de 800 milhões de dólares para 1,7 bilhão. Medicamentos novos são, muitas vezes, obrigados a passar em pelo menos duas espécies de animais em ensaios pré-clínicos, antes de ir para a fase humana. [11] No entanto, “apenas cerca de 5% dos medicamentos testados em animais se mostram eficazes para o uso humano”. [12] Já o desenvolvimento de vacinas se baseia princípio de proteção, ou seja, a sobrevivência por morte após a exposição – método que teve início pela primeira vez em 1890. Muitos desses testes são extremamente cruéis e envolvem altos níveis de dor e angústia para os animais. De acordo com o USDA, em 1998 mais de 60% dos testes de vacinas envolveram experiências de dor que não foram documentadas formalmente.

Conclusão

O modelo animal tem provado ser um modelo pobre para a pesquisa das doenças humanas. Os animais não-humanos são geneticamente diferentes, por isso que o estudo das doenças nos animais pode nos dar informações erradas ou inadequadas. “As dificuldades associadas ao uso de modelos animais para as doenças humanas têm relação com o metabolismo, anatomia e com as diferenças celulares entre os seres humanos e as outras espécies.” [13] De acordo com o Dr. Richard Klausner, ex-diretor do Instituto Nacional do Câncer, “nós temos curado câncer em ratos por décadas, e isso simplesmente não funciona em humanos.” [14] Mesmo na área de engenharia genética, o modelo animal tem se mostrado pobre. Por exemplo, apesar do NIH investir 50 milhões de dólares no Knockout Mouse Project, os ratos geneticamente manipulados têm as suas limitações: “O modelo atual de ratos para a doença de Charcot pode estar completamente errado…” [15]

Enquanto os Estados Unidos gastam mais dinheiro em pesquisas com animais, do que com os cuidados de saúde, mais do que qualquer outra nação, por trás disso, nós “falhamos, quando se trata de indicadores de saúde e expectativa de vida.” [16]

Traduzido de NEAVS – New England Anti-Vivisection Society, Biomedical Research (Acesso em março de 2014)

Referências

[1] Gawrylewski, A. (2007, July 1). The Trouble with Animal Models. The Scientist, 21(7), 44.

[2] National Research Council. (2009). Scientific and Humane Issues in the use of Random Source Dogs and Cats in Research. Washington, DC: The National Academies Press.

[3] Greek, R., & Shanks, S. (2009). Animal Models in Light of Evolution. Boca Raton, FL: BrownWalker Press.

[4] Greek, R., & Shanks, N. (2009). FAQs About the Use of Animals in Science. Lanham, MD: University Press of America.

[5] Ibid.

[6] Ibid.

[7] Greek, R., & Shanks, S. (2009). Animal Models in Light of Evolution. Boca Raton, FL: BrownWalker Press.

[8] Waters, H. (2011, March 30). Q&A: From the lab to the clinic. The Scientist.

[9] Greek, R., & Shanks, S. (2009). Animal Models in Light of Evolution. Boca Raton, FL: BrownWalker Press.

[10] Pippin, J. (2009). Humane Seal Fact Sheet on Animal Experimentation. PCRM.

[11] Brewer, T. (2007, September/October). Trials and Errors: Drug testing raises ethical – and efficacy – issues. Best Friends Magazine.

[12] Waters, H. (2011, March 8). Q&A: Improving preclinical trials. The Scientist.

[13] Gawrylewski, A. (2007, July 1). The Trouble with Animal Models. The Scientist, 21(7), 44.

[14] Cimons, M., Getlin, J., & Maugh, T., II. (1998, May 6). Cancer Drugs Face Long Road From Mice to Men. Los Angeles Times, A1.

[15] Gawrylewski, A. (2007, July 1). The Trouble with Animal Models. The Scientist, 21(7), 44.

[16] Begley, S. (2011). The Best Medicine. Scientific American, 305, 50-55.

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