Os veganos são extremistas?

Em primeiro lugar, o que é um “vegano”? O termo foi cunhado por Donald Watson, cofundador da Sociedade Vegan formada em 1944, que consiste na junção da primeira e da última sílaba da palavra “vegetariano”.

Elefante

O veganismo é diferente do vegetarianismo, na medida em que representa uma recusa a tolerar a exploração animal em todas as suas formas e, mais precisamente, envolve a recusa em participar da sua legitimação. Além da alimentação, desprovida de qualquer produto de origem animal, os veganos não compram couro, lã, produtos testados em animais e, obviamente, não assistem touradas, rodeios, etc.

Veganos são em sua maioria “abolicionistas”, pois em uma sociedade onde a exploração animal, inerentemente violenta (ela se dá pela força), não é mais necessária, a sua perpetuação lhes parece absurda. Por essa razão, é comum ouvir as pessoas chamarem os veganos de “extremistas” pelos críticos, porque eles se recusam a aceitar qualquer espécie de abate “humanitário”.

Extremismo não é moderação. O extremista coloca o seu pensamento ao “extremo”, enquanto o segundo prefere a conformação. Em relação à exploração dos animais, os veganos são essencialmente hostis às reformas mínimas ou simbólicas, que poderiam retardar a abolição absoluta.

Mas por qual motivo eles exigem abolição a todo custo? A nossa relação com os animais é socialmente construída e, principalmente, uma relação de dominação de uma espécie sobre a outra, ou seja, os interesses da espécie humana ficam em primeiro plano. De fato, os animais que usamos para alimentação, ciência, ou entretenimento, sempre foram considerados um meio, para que algum fim seja atingido, apesar da máxima kantiana “sempre tratar a si mesmo e aos seus semelhantes como fim, e nunca como um meio”, os animais não são considerados “semelhantes”. A exploração animal também entende que os animais não-humanos não são indivíduos únicos. Eles são medíocres, estão na média. O fim é o homem, sempre… Seus interesses também.

No entanto, quase 90% dos franceses se opõem à qualificação de “propriedade pessoal” dos animais do Código Civil, de acordo com uma pesquisa do IFOP (Instituto Francês de Opinião Pública), isso significa cerca de 30 milhões de pessoas. Nós sabemos: os animais são seres sencientes. Baleias, porcos, galinhas, gatos, ratos, humanos, todos eles sentem emoções e têm consciência da dor.

Mas poucas pessoas conseguem entender no que esse raciocínio implica. Na verdade, qual o direito que temos de explorar outras espécies se elas não são objetos e podem sofrer? Essa dominação do homem sobre os outros animais se baseia na premissa da “coisificação” do animal, visto como um meio.

Podemos então dizer que o veganismo é uma posição extrema? Prefiro pensar que o veganismo faz parte de uma coerência. Uma vez que você não aceita a violência explícita, a posição mais racional é estender essa recusa para qualquer modo de violência “oculta”, recusando a contribuição de qualquer forma de exploração animal. Quando os críticos acusam o movimento abolicionista de extremista, eles estão simplesmente indo contra uma ideia que propõe mudanças profundas em nossa sociedade, mas sem qualquer argumento racional. É a resistência em aderir a uma nova concepção de justiça social, uma vez que envolve esforços para derrubar hábitos já estabelecidos. Acusar o movimento vegan de extremismo é simplesmente mostrar uma preguiça para questionar as bases de uma sociedade construída, em boa parte, sobre a exploração dos animais.

No entanto, esse adjetivo recorrente é interessante de um determinado ponto de vista. De fato, embora muitos neguem as reivindicações rotulando os veganos de “extremistas”, sem qualquer discussão, isso ocorre porque tais ideias não são tão idiotas assim. Na verdade, as ideias veganas trazem algum desconforto por parte da sociedade. Mas lembre-se que há pouco mais de 50 anos, nos Estados Unidos, o compromisso de Martin Luther King pelos direitos civis foi visto, por muitos, como extremista. Quem se atreveria a dizer, hoje, que os direitos políticos iguais para todos os cidadãos, independente da cor da pele, são ideias radicais? Se o termo “extremista” quer dizer sobre a possibilidade de vivermos sem participar de qualquer discriminação arbitrária, injusta e violenta, então, sim, os veganos são extremistas. Afinal, nas palavras de Martin Luther King, em 1963, depois de ser preso em uma manifestação pacífica em Birmingham: “o nosso país e o mundo estão precisando urgentemente de extremistas criativos”.

Kevin Barralon é estudante de Filosofia e membro da Associação L214 de Proteção Animal.

Fonte: LE HUFFINGTON POST

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