O sofrimento na experimentação animal

A vivissecção é uma das piores formas institucionalizadas de abuso dos animais em nossa sociedade, sendo legalmente reconhecida. Não há limites para o que acontece dentro de um laboratório, exceto por aqueles impostos por comitês criados por tais estabelecimentos. Imagine passar uma vida inteira em um hospital como paciente ou prisioneiro; isso está bem próximo da vida dos animais de laboratório. Você viveria em desconforto e agonia, até a sua morte – sendo incapaz de defender a si mesmo.

A questão não é se eles podem pensar ou se eles podem falar. A questão é: eles podem sofrer? – Jeremy Benthan
“A questão não é se eles podem pensar ou se eles podem falar. A questão é: eles podem sofrer?” – Jeremy Benthan

Animais de laboratório vivem uma vida estressante, monótona e em condições artificiais de confinamento e privação. A única mudança em suas vidas ocorre por conta de algum protocolo de pesquisa – o que pode incluir experimentos invasivos ou algum procedimento que possa causar a morte.

A cada ano, nos Estados Unidos, mais de 25 milhões de animais são usados em pesquisa biomédica, testes de cosméticos e para fins educativos. Isso inclui cães, gatos, furões, coelhos, porcos, ovelhas, macacos, chimpanzés, entre outros. No entanto, a maioria dos animais de laboratório (mais de 90%) são ratos, camundongos e pássaros. Algumas estatísticas estimam que existam de dezenas a centenas de milhões deles.

Protocolos dolorosos

Nessas pesquisas, os animais são submetidos a experimentos que podem incluir todo tipo de teste de novas drogas até a infecção de doenças, envenenamento por toxicidade, queimaduras na pele, danos cerebrais, eletrodos implantados em seus cérebros, mutilações, cegueira e outros procedimentos dolorosos e invasivos. Existem protocolos que podem causar sofrimento profundo, como isolamento social de longo prazo, eletrochoques, privação de água ou comida, reprodução constante e separação de filhotes de suas mães. Em um teste de toxicidade, animais são usados em toxicidade crônica e avaliação de substâncias cancerígenas, aos quais recebem uma dose por dia, sete dias por semana, em até dois anos, sem qualquer período de recuperação. Muitos deles, se não a maioria, morrem antes do estudo acabar. Com exceção dos chimpanzés, os animais que sobrevivem na pesquisa animal, são mortos após a sua conclusão.

Muitas experiências com animais usam dispositivos de contenção, impedindo qualquer movimentação dos mesmos. Alguns projetos de pesquisas envolvem a imobilização de partes específicas do corpo – cabeça e pescoço, pernas e pélvis –, enquanto outros protocolos envolvem a imobilização do corpo inteiro de um animal. Por exemplo, pesquisadores das grandes universidades norte-americanas têm conduzido “experimentos de estresse” em ratos e camundongos. Essas pesquisas incluem imobilizar ratos em tubos, prender os seus pés e os suspendendo por suas caudas, os forçando a nadar para evitar um afogamento. Os pesquisadores alegam que esses experimentos são importantes para a compreensão da ansiedade e da depressão humana. Mesmo que a restrição seja particularmente estressante e frustrante para um animal, algumas pesquisas são projetadas para a imobilização parcial ou total durante meses.

Anestesia, intubação e eutanásia também são procedimentos comuns em um laboratório, que exigem do pesquisador habilidade e treinamentos extensivos. Quando realizados de forma inadequada, podem causar dor extrema e desconforto. Por exemplo, se um pesquisador utiliza um agente paralisante em um animal, mas não monitora os seus sinais vitais no intuito de verificar se ele está devidamente anestesiado, há uma grande chance de que o animal esteja sofrendo, mas sem se movimentar. Infelizmente, em alguns casos, a equipe de um laboratório não possui formação e a experiência necessária – por vezes, sensibilidade – que poderiam evitar um sofrimento inútil.

As áreas de xenotransplante (transplante de células, tecidos ou órgãos de uma espécie para outra) e de engenharia genética, também trazem uma grande quantidade de sofrimento e morte dos animais. A engenharia genética consome e elimina volumes incalculáveis de animais, no intuito de criá-los com características específicas. Os primatas não-humanos, gatos, cães, ratos e camundongos, entre outros, são sujeitos à manipulação genética. Muitos desses animais morrem, depois de experimentar a dor de condições anormais e patológicas.

Existência diária

Animais de laboratório sofrem não apenas devido aos protocolos de pesquisa, mas também por conta do estresse severo do dia a dia da vida em laboratório. Eles passam suas vidas em gaiolas estéreis, incapazes de fazer escolhas ou expressar comportamentos naturais. A maioria nunca experimentou ar fresco ou a luz do sol, apenas grades e concreto. As instalações fora das celas trazem uma quantidade limitada e pouco tempo ao ar livre. As condições padrões de um laboratório, como pequenas gaiolas, lotadas, com ruídos altos e iluminação não natural, são conhecidas por causar estresse nos animais, que podem apresentar sintomas físicos, incluindo condições inflamatórias crônicas. Estudos mostram que os ratos são capazes de sentir empatia e que eles se tornam mais estressados quando testemunham outros ratos em situações de perigo. Outras pesquisas têm constatado os efeitos duradouros do estresse e do trauma em chimpanzés que vivem em laboratórios. Em 2009, uma investigação revelou que macacos ficam girando freneticamente nas suas gaiolas, mordendo feridas, mutilando a si mesmos e arrancando seus próprios pelos, tudo por culpa do estresse psicológico que eles passam. O termo utilizado para isso é “psicose induzida por estresse” – os laboratórios literalmente enlouquecem esses animais. Depois de ver imagens dos chimpanzés, dessa investigação, a famosa primatologista Dra. Jane Goodall declarou:

“Em nenhum outro laboratório que visitei, encontrei chimpanzés com medo tão intenso. Os gritos medonhos que ouvi, quando os chimpanzés eram forçados a se moverem em direção a alguma agulha, foram terríveis.”

Para qualquer animal de laboratório, o dia a dia é traumático em si mesmo – mesmo sem a sua participação forçada em um protocolo específico. Eles experimentam sofrimento mental e físico, além do tédio sem fim, ocasionado pelo confinamento, medo e estresse emocional. Adicione isso ao medo e a agonia de ter que passar por um procedimento, e só então poderemos começar a entender o desespero e a dor que eles vivem, todos os dias – e para a grande maioria, durante as suas vidas inteiras.

Proteção legal: realidade ou retórica?

A Lei de Bem-Estar Animal (AWA) é a única lei federal que oferece proteção, ainda que mínima, aos animais de laboratório – a Política do Serviço de Saúde Pública Federal (PHS, na sigla em inglês) sobre o Cuidado Humano e o Uso de Animais de Laboratório, abrange os animais utilizados pelo financiamento do NIH (Instituto Nacional de Saúde), mas o PHS não realiza fiscalizações – ao invés disso, ele depende de instituições específicas para a inspeção de seus próprios laboratórios. Todavia, curiosamente, a AWA exclui das normas ratos, camundongos e aves criados para pesquisa, o que constitui de 90 a 95 por cento dos animais de laboratório. Para o restante, a lei abrange apenas a criação e normas específicas para alimentação, manejo e espaço, incluindo os cuidados veterinários. Ela não proíbe qualquer tipo de experiência, independentemente da quantidade de dor ou sofrimento que possam causar a um animal. Ao invés disso, a lei exige a existência de comitês de fiscalização (chamados de Comitês Institucionais para o Uso e Cuidado de Animais, ou IACUCs) para a análise e aprovação de protocolos de pesquisa. Tais comitês são compostos e supervisionados pelos membros da própria unidade de pesquisa, assim, os fiscalizadores são principalmente pesquisadores de animais. Como resultado, eles permitem que a maioria das pesquisas aconteça independentemente da quantidade de sofrimento imposto. E se ele for “necessário” para o estudo, os pesquisadores ainda podem até mesmo suspender o uso de analgésicos.

De acordo com os últimos dados disponíveis do USDA (2009), 7,8% de todas as pesquisas aprovadas pela AWA incluíram animais de laboratório que foram submetidos a procedimentos dolorosos sem o uso de medicações para alívio da dor. No entanto, presume-se que o grau de dor suportado é grosseiramente avaliado, sem nenhum critério objetivo que possa garantir a verdadeira percepção de dor e sofrimento desses animais. Na lei atual e federal, a administração de alívio para dor é discricionária, ou seja, não obrigatória. Quando um pesquisador ou veterinário administram analgésicos, anestésicos ou tranquilizantes, os resultados dos experimentos podem ser alterados. Esse conceito de “dor necessária” é fundamental para a AWA, que afirma que especificamente a sua intenção não é regular ou restringir o planejamento e a execução de projetos ou protocolos experimentais. Um pesquisador de carreira, por exemplo, relatou diarreia crônica em macacos de laboratórios como algo “normal”. Já outro afirmou que “balançar de trás para frente” é algo que “eles simplesmente fazem” – tais pesquisadores estão acostumados com o sofrimento dos animais de laboratório. E enquanto a AWA e o sistema IACUC pretende garantir um tratamento “humanitário”, ele é tão limitado que abre brechas para que tais animais tenham pouca ou nenhuma proteção.

Estudos têm demonstrado que as pessoas apenas aceitam a pesquisa animal quando elas acreditam que os animais não sofrem e quando tal modelo é cientificamente necessário. Na verdade, eles sofrem e não é necessário. Podemos verificar isso hoje de uma forma que jamais poderíamos no passado. A equipe científica da Neavs verificou metodicamente o uso dos animais em pesquisas, artigos em jornais e revistas, que demonstram que a pesquisa animal não é necessária, não é preditiva para os seres humanos e, muitas vezes, é irrelevante, imprecisa ou até mesmo perigosa para a saúde humana. Os fatos deixam claro que podemos salvar animais e seres humanos, quando substituímos o modelo animal pelos métodos alternativos, que oferecem predição, segurança e eficácia. Resumindo, podemos acabar com o mal e o sofrimento que os animais passam e melhorar ainda mais a nossa saúde.

Traduzido de “Harm and Suffering“, Neavs – New England Anti-Vivisection Society, Acesso em fevereiro de 2014

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