Não Matarás os animais em nome da Ciência

Já estávamos nos preparando para mais uma aula de Fisiologia. Recebemos a notícia de que mataríamos um rato, para ver quanto tempo o seu coração bateria fora do corpo. Tudo isso, com ele anestesiado e ainda vivo; seria uma aula de vivissecção.

O sequestro da ética.

O sequestro da ética.

No laboratório de Fisiologia, nós estávamos aguardando o sacrifício de um animal, em nome de uma suposta ciência. A ideia, segundo a justificativa, era ver na “prática” o funcionamento do organismo do rato. Como era no início de curso, alguns alunos tinham a curiosidade de saber o que iríamos presenciar na Universidade – local onde a ética jamais pode ser negligenciada. Apesar disso, o instrutor do laboratório, bem como a professora de Fisiologia, pareceram não se importar com a morte do pobre rato, nascido com a data de morte marcada.

Alguns alunos começaram a chorar, ao saber o que seria feito. De alguma forma, o senso moral, de que algo de errado iria acontecer, era quase que unânime da mente dos alunos, de um curso de Psicologia. Uma aluna chorou descontroladamente e saiu da sala, mesmo assim, o instrutor carregou o rato, já anestesiado e o prendeu na mesa, em formato de cruz. Ironicamente, o animal estava sendo crucificado em nome da ciência. Me lembro, assim, de colocar a mão no rato e perceber que o coração dele estava disparado e batendo rapidamente, como quando passamos por uma situação de perigo e muita adrenalina é liberada. “Ele fica inconsciente”, disse a professora, “não sente nada”. Fingi que acreditei, foi uma espécie de autossabotagem.

Com o rato na mesa, o seu corpo é aberto com um bisturi. Lembro-me do corte feito em sua pele, “parece que corta igual papel”, um dos alunos comentou. Essa frase revelava exatamente o que estava acontecendo, aquele rato estava sendo tratado como um objeto, sem consciência ou capacidade de sofrimento. Era uma vida sem valor, uma coisa, que seria descartada e jogada no lixo, depois daquela aula. E assim era tratada pelos professores daquela instituição. Eles já nem se importavam com aquilo, era uma espécie de insensibilidade, induzida pela constante morte induzida aos animais do biotério. Um processo de dessensibilização perfeito, tal qual muitos psicólogos haviam discutido – todo o sofrimento de ter que matar um rato, já não mais existia ou estava reprimido, no senso moral do sujeito.

Perfuramos o pulmão do rato e tiramos o seu coração, que continuou batendo fora do seu corpo. Não existia nenhuma dúvida de que isso ia acontecer, o resultado era absolutamente previsível e, claro, inútil para a minha formação como psicólogo. Na aula seguinte, destruímos a espinha de uma rã, aos berros da mesma, para podermos observar a contração involuntária do músculo da sua perna. Mais uma vez, uma vida jogada no lixo e tratada como coisa. Já a reação dos estudantes foi menos intensa do que na primeira aula. O processo de coisificação da vida já estava se instalando. Uma parte da moral já havia sido corrompida. E o silêncio, daqueles que sabiam que havia algo de errado naquilo tudo, havia se instaurado. E a vida daqueles animais, parecia valer menos do que dos seres humanos.

Todos os dias tal situação se repete em universidades do mundo inteiro. Animais são mortos em nome de uma falsa ciência. E a ética, que já existe antes do estudante presenciar tais aulas, é roubada e sequestrada. Aí fica a pergunta: você permite que os seus valores éticos sejam sequestrados em nome da ciência?

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2 ideias sobre “Não Matarás os animais em nome da Ciência

  1. Marcos Autor do post

    É inaceitável. Por isso que estou aqui, para alertar que isso não é certo. Eu sou um estudante de Psicologia que jamais irá compactuar com isso.

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