O Fim de um Especista

Imagine que você possui um cachorro doméstico, você possui amor um grande por ele e o trata como um membro familiar. Ao acordar você recebe uma lambida do seu cão; prepara-se para escovar os dentes.

Vaca

No banheiro, você coloca a pasta na sua escova, que foi testada em algum animal, antes de chegar até a sua casa. Você abre o chuveiro e usa um sabonete ou um shampoo, que teve o nível de toxicidade avaliado em coelhos, gatos ou cães. Quando sai do chuveiro, se enxuga com uma toalha feita de lã, retirada de ovelhas. Então, se prepara para colocar o seu sapato, de couro legítimo, feito da pele de um boi.

Ao tomar café da manhã, abre a geladeira e escolhe se alimentar de um lanche, com requeijão, queijo e manteiga. Ainda se lembra de comer um pedaço de pizza de salame, que havia sobrado do jantar da noite anterior. Você saboreia o gosto, que realmente é apetitoso ao paladar. Satisfeito, se despede do seu cachorro e vai trabalhar. No meio do caminho, porém, acaba vendo uma cena terrível: uma mulher espancando um gato e um cachorro. Você para o carro, desce e chama a polícia. A mulher foge e dentro de você há um sentimento de indignação. Você pensa: “Como é possível alguém maltratar um ser indefeso, que sofre e sente dor?”. Por fim, adota os animais e a convivência com eles traz a certeza de que eles possuem singularidade, emoções e sentimentos, como você, da espécie humana.

Apesar de saber destes fatos, liga o computador e no Facebook vê que o seu amigo compartilhou uma foto de um abatedouro, além de um vídeo denunciando como os produtos de origem láctea são produzidos – as vacas engravidam e não podem alimentar os seus filhos, para saciar o paladar de seres de outra espécie. Em choque, comenta na postagem, argumentando que os animais estão aqui para servir ao homem e que nós precisamos sacrificá-los para que a espécie humana seja preservada. Ainda afirma que na natureza, não existe piedade e que o ser humano tem poder absoluto sobre as outras espécies.

Depois de ter a sensação de indignação, novamente, acaba vendo uma postagem racista e homofóbica. Nela, as pessoas comentavam que os gays são pecadores e pessoas sem sentimentos, e que os negros e a classe baixa são obrigados à servir aos ricos, mesmo assim, você se recorda que na missa o padre disse que a compaixão com os outros seres é algo nobre, além de ter escutado que a violência deve ser combatida.

Mas o pior está por vir; você se depara com uma página de ateus e encontra uma imagem dizendo que a espécie humana é fruto de uma evolução, dos outros animais. Na escola, os professores te ensinaram isso. Você abre um texto, da postagem. Nele, um grupo de cientistas defende que a consciência não é um privilégio humano, ou seja, a racionalidade existe nos outros animais e, principalmente, eles podem sofrer. De repente, você percebe que viveu uma mentira. Da mesma forma que você sempre defendeu que o racismo tivesse um fim, ainda contribuía com a coisificação da vida, pois pagava e se alimentava de seres que tiveram a vida ignorada. Eles se tornaram meros objetos e instrumentos.

Assim como Hitler defendia que os doentes deveriam ser exterminados, para a preservação da espécie humana, você acreditava que os animais deveriam ser sacrificados, para que você vivesse mais ou pudesse tomar o seu remédio para dor de cabeça. Com uma dor profunda, desliga o computador e vai até sua cama. Abraça o seu cachorro e reflete que está sendo injusto ao defender apenas os cães ou gatos, afinal o sofrimento é compartilhado por outros seres. E se a ética é uma exigência da vida civilizatória, pois sem ela voltaríamos à selvageria, ela deve valer também para os animais.

Você dorme e espera que, ao acordar, tudo isso tenha acabado; mas nada disso fazia parte de um sonho: assim como o racismo terminou, em quase sua totalidade, o especismo deverá terminar um dia, entretanto, mudar algo tão enraizado em nossa cultura não ocorre da noite para o dia, leva tempo e conscientização. Ao acordar, na sua consciência, permanece uma certeza. A certeza de que a liberdade triunfará. Já você, libertou-se de mais um preconceito. O preconceito contra os animais, pois sem os conhecer, os julgou como servos e como escravos. O fim desse julgamento, na sua mente, será espalhado e outros se darão conta, para que, então, a mudança seja na humanidade. O tempo é mestre.

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4 ideias sobre “O Fim de um Especista

  1. Pingback: O Fim de um Especista | euecarlota

  2. Édina Hilleshein

    Como faz para saber se tal produto é livre de testes em animais se as empresas não colocam no rótulo? É realmente bem difícil tentar ser vegano, sendo que a sociedade dificulta o máximo que pode a nossa existência. Como vcs fazem? O que vcs sugerem? Eu sou somente vegetariana, mas mesmo assim, às vezes acho que fujo dos preceitos por não ter como saber se tal produto é vegetariano/vegano ou não, infelizmente.

  3. Marcos Autor do post

    Olá Édina, tudo bem? Realmente é complicado saber se uma marca faz ou não testes, mas aqui há uma lista que pode te ajudar:
    http://www.pea.org.br/crueldade/testes/naotestam.htm

    Não creio que a suposta “dificuldade” em ser vegano seja mesmo um empecilho real. Os animais são mais importantes do que isso. Precisamos colocá-los em primeiro plano. Não podemos optar pelo nada, quando não temos tudo.

    Abraços.

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